Dez dias

No dia 19 cheguei a Sydney e dez dias depois foi anteontem. Já se percebeu que os dias cá começam cedo, por volta das oito, mas também acabam mais cedo do que em Lisboa, principalmente devido à luz solar que é escassa. Ao princípio estranha-se, e depois também. Mas o facto é que, por isso, ou então por outros motivos que desconheço ou ainda não identifiquei, o tempo aqui passa num instante. Já me tinham avisado, mas agora é que estou mesmo a senti-lo. Nem acredito que já estou há doze dias neste maléfico hostel onde a internet não funciona e as gerentes são as embaixadoras da antipatia e da estupidez incomensurável.

Quero uma casa! Estou cá há doze dias, já vi doze casas, mas nada suficiente bom ou suficientemente disponível para eu me mudar. Encontrei uma em Bondi, na praia, para onde não me importaria de ir, mas os Argentinos opõem-se, acham que é um “hrôlle” (hole). Também vi outra que era um espectáculo, mas quando lá cheguei para a ver, alguém já se tinha adiantado 20 minutos e ficado com ela. O lado positivo de ainda estar à procura de casa, é que assim passo a vida de um lado para o outro, e já conheço a maioria dos bairros mais centrais de Sydney. É facto que ainda não me oriento sem o GPS do meu telefone, mas já vou sabendo o nome de algumas ruas, e sei identificar se quero ir para Norte, para Sul; para Este para Oeste. Isto vindo de uma pessoa que só descobriu a existência da Avenida de Ceuta há cerca de um ano, é um prodígio. Daí a razão do meu orgulho.

A noite cá é muito divertida. Sai-se todos os dias, excepto ao Domingo e à Segunda. E o bom é que começa cedo, por volta das sete começa o warm up, normalmente em residências da Universidade onde todos se reúnem, e depois progride para uma série de bares de que gostamos e que já quase temos o cartão de cliente usual. A cerveja é morta e miserável, quase doce, sem graça nenhuma. Mas isso não impede os Australianos de nos cobrar até 7,20 dólares por um copeco que quase não dá para uma pessoa molhar as beiças. É por esse motivo que tenho desenvolvido uma excelente capacidade para caçar promoções, procurar grandes etiquetas amarelas e encarnadas, com pontos de exclamação que apontam para os melhores negócios: duas garrafas de vinho branco por dez dólares, um six-pack por doze… E sim, estes são os melhores negócios.

Independentemente disso, e não obstante a minha corpulência, isso não me tem impedido de me divertir à grande, de todas as vezes que já fui sair. É que aqui a bebida não é a cerveja nem o whisky, mas antes o espírito que todos respiram e contagiam – de forma gratuita. As piadinhas de mães são comuns (não se preocupe, Amélia, que o seu bom nome continua imaculado), também se inventam alcunhas (embora com muito menos destreza do que vós que me lêem) e também se pregam rasteiras na rua quando não estamos a olhar. Toda a gente parece achar muita graça ao meu azar, e ao facto de eu tropeçar quase sistematicamente nas ruas onduladas, de me enganar e comprar o bilhete de comboio errado, mais caro, e de aparentemente trazer má fortuna para toda a empresa em que nos metemos. Ontem, por exemplo, tínhamos marcado o campo de futebol da faculdade às nove, para jogarmos um cinco para cinco com os franceses, argentinos, holandeses… Óbvio que chegamos lá e um enormesmo chamuça-segurança nos enviou de volta para Kings Cross, alegando que o edifício estava encerrado e não podíamos entrar. De quem é a culpa? Do Frán, como às vezes me chamam aqui. O Frank, como também me chamam, é que dá azar. De tal forma que já se discutiu a hipótese de eu amanhã ficar no hostel, em vez de ir ver a casa que temos agendada, para não hipotecar a hipótese de gostarmos dela, ou de ela estar disponível ou de o dono estar disposto a alugar a sua nobre propriedade a cinco javardos latinos e ao seu pai Alemão, muito cortês, muito alto, muito organizado, com um apelido Tscheuschner que impõe respeito a qualquer pessoa. De maneira que se calhar amanhã fico mesmo no hostel, ou talvez lá em baixo na rua, enquanto os outros vão ver a casa, a ver se é desta!

Em termos alimentares, como muitos têm estado curiosos, posso adiantar que tenho comido até bem. Tirando os dias em que fico sem comer nada desde o almoço até ao jantar (vendo-me assim na obrigação de alarvar quando finalmente vislumbro o tão almejado frigorífico), até o tenho feito de forma saudável. Já comi bolonhesa caseira, por duas vezes me aventurei e comi canguru, já comi também franguinho, douradinhos, e hoje ao almoço cometemos uma extravagância e comemos um salmãozinho com arroz de cenoura. Tudo nossa lavra, tudo cozinhado nesta pestilenta cozinha de hostel de onde vos escrevo, onde até as próprias paredes tresandam a pimentos, onde me pisam sempre que quero chegar ao fogão e onde se formam pequenas gotícolas no meu bigodinho, devido a todos os vapores que por aqui andam. Mas pelo menos não fui nunca ao McDonalds, como os argentinos que vão quase mais do que diariamente. Em termos de fibras para o cócó é que não me tenho portado tão bem. Raramente como vegetais – não porque não goste ou porque dá trabalho, mas antes porque são caros e não tenho azeitinho para os temperar – e fico-me antes pela fruta. Maçãs como com muita regularidade. São óptimas! E agora também já temos comido umas cenouras… Mas prometo que, quando tiver a minha casa, logo melhorarei neste campo. e passo a fazer saladas e arroz de tomates.

Quando tiver a minha casa.

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Ronaldo, Messi, Van Persie, Balloteli

Aqui em Sydney, o Euro ainda não acabou. Mais – parece que ainda nem começou.

Nas festas e barbecues da faculdade, “Hi, where are you from?”, “I am from Portugal”, sorriso grande e gritam “Ronaldoooo!”. Com os argentinos a mesma coisa, “Messi, el mejor”. Também há muitos fãs do Balloteli e do Özil, e portanto todos falamos uns com os outros como se o Euro ainda não tivesse acontecido, como se nós não tivéssemos perdido com a Espanha, como se a Argentina fosse participar (no Euro) e como se a Holanda tivesse somado pelo menos um ponto. Há imensa festa, o futebol é sempre motivo de conversa e de discussão, especialmente quando juntamos portugueses e argentinos, como podem calcular. Mesmo os que não são de países europeus como a França ou a Argentina, sejam os indianos ou os egípcios, todos adoram o prodígio madeirense. Por conseguinte, é um grande asset ser-se Português nestas terras. Mas isto claro, até me verem em acção, a jogar futebol em vez de a falar de futebol. Vou tentar adiar esse momento ao máximo, não por ser ridiculamente fraco a jogar, mas antes para aumentar o suspense, evidentemente.

Mas o ambiente é de grande festa, todos são amigáveis, todos estão interessados em fazer conversa. Ainda assim, nem tudo é um mar de rosas. Como podem imaginar, a minha surdez, aliada a conversas em ambiente de festa com música a dar relativamente alto, não se coadunam com nomes estranhíssimos que não sei escrever ou pronunciar. Ahmed’s, Aarahn’s, Oumbelline’s são nomes que não compreendo mais do que frequentemente. Portanto, numa conversa normal, começo por perguntar o nome, e depois de me responderem, faço uma tentativa falhada de imitar, mas é difícil e provoca constrangimento. Mas já arranjei solução. Na minha cabeça, crio secretos nomes de código de que gosto e cuja existência ninguém conhece: Indiano Dentinhos, Francesa Zizu, Alladino, Chinesa-com-o-cabelo-ligeiramente-mais-curto-que-o-normal. Quando os vejo, penso nestes nomes e sei identificá-los, mas digo só “Hey man” ou “Hello ladies”, e assim me vou safando na faculdade.

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E por falar nisso, à medida que os dias vão passando, vamos descobrindo cada vez mais da nossa interminável UTS. Ao contrário do que estamos habituados em Lisboa, a Universidade distribui-se por vários prédios, sendo que por vezes é necessário sair para a rua para nos movimentarmos de uns para os outros. Há uns mais modernos do que outros, mas todos têm excelentes condições no geral. Em cada sítio novo onde entramos, há novas salas de estudo, cheias de computadores com ecrãs gigantes, operados por chineses com cabelos gigantes, e há também novas salas de convívio e novas zonas de chill-out. É literalmente tudo à grande.

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Em termos de adaptação, parece que estou a conseguir integrar-me. Já olho instintivamente para o lado certo quando atravesso a estrada (não sei dizer se o certo é o esquerdo ou o direito, mas na altura sai-me por instinto), já janto às sete da tarde como o resto da malta, já digo no worries sempre que me pisam na cozinha do hostel e já sou um ás a detectar sotaques – até sei distinguir espanhóis de argentinos, basta-me ouvi-los a falar inglês.

Continuo é a não ter casa, mas pelo menos já sei com quem a vou partilhar. Posso adiantar que será uma casa repleta de personagens, como podem ver abaixo. E ainda falta o nosso super herói, o engraçado Alemão, cuja testa é suficientemente grande para projectar um filme, caso a televisão se avarie.

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Eu, Diego, Diego, Joaquín e Vasco

Assim que estiver instalado na minha mansão, farei um tour pela casa. A ver se consigo fazer um vídeo-log de vez em quando!

Para já, ainda nem casa tenho, por isso mais vale deitar mãos ao trabalho. Até à próxima.

UTS: University of Technology Sydney

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Ontem foi o primeiro dia na UTS, um dia de grandes revelações e surpresas.

O edifício principal parece um museu de arte contemporânea. Altamente sofisticado, com triplos pés-direitos (obrigado a quem me indicou o significado deste termo) e o mais importante indicativo de avanço tecnológico: mais de dezassete chineses por metro quadrado.

Entro no prédio. No primeiro metro quadrado, há dezassete chineses com óculos e t-shirts côr de laranja, todos prestáveis, todos tamagoshis, indicando o caminho para o Great Hall. Falam muito, riem muito. É o primeiro dia, apontam-nos para a cerimónia de boas-vindas.

O Great Hall também é state of the art. As paredes não são brancas e rectas, são côr de lagosta e aos bicos, irregulares, parece uma nave espacial formada por cristais de Kriptonite ou assim. O sistema de som é um espectáculo. Há um ecran 3:1 gigante onde se reproduz o PowerPoint e a imagem ao vivo do orador. Sento-me numa das filas de trás – sou português, cheguei atrasado – ao pé de um chinês. Olho ao lado e há mais chineses. Cheira a loja do chinês. Mas calma, calma. Detecto um novo odor. Desta vez uma fragância diferente, mais frutada. É definitivamente coco. Ou caril. Talvez ambos. Olho para o lado: são ambos, é o Indiano que está na fila da frente. Tem um turbante e um smartphone, gosta de filmar a actuação de didgeridoo a que estamos a assistir. Ri-se muito.

A cerimónia passou rápido, recebemos muitas boas-vindas, muitos desejos de boa sorte e já está. Enjoy your journey in Sydney.

I will.

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À tarde houve outra inauguração, desta vez apenas para os estudantes internacionais. Subitamente já não há chineses, ou pelo menos não tantos, e há Europeus, claramente nórdicos, gigantes alemães, há também boémios argentinos, estilosos egípcios, modernos japoneses.

Ouvimos uma holandesa a fazer uma apresentação espectacular sobre a Austrália, cheia de graça, a explicar os costumes, throw something on a barbie, no worries e o hino popular “Waltzing Mathilda”, que não passa de uma música ébria e engraçada que, segundo ela, há que aprender com urgência para recitar em pubs ou em locais onde se beba um ou dois copos:

Once a jolly swagman camped by a billabong,
Under the shade of a coolibah tree,
And he sang as he watched and waited ‘til his billy boiled
“Who’ll come a-Waltzing Matilda, with me?”

A seguir aparece um grandalhão de boné, típico Aussie, para fazer propaganda aos Surf Camps que organiza. Estou de pé atrás, só de pensar em surf, imagino-me em cima da prancheta, todo gordo, todo trôpego, todo escorregadio. Vejo-me a bater com a cabeça na prancha, a ser visitado por um tubarão, a ser levado pela corrente.

No fim da apresentação, vejo-me um Kelly Slater. Acredito agora piamente que nasci para o surf, é este o meu desporto. É neste que sou mesmo bom. Mal posso esperar para ir para o mar e tomá-lo como meu.

Estou só a brincar, acho que não vou dar uma para a caixa. Mas estou decidido a tentar!

A seguir ainda deu tempo para ir a uma terceira apresentação para procura de flatmates. Conheci imensa malta porreira, especialmente os Argentinos, sempre engraçados e gingões, havia também uma Chilena com personalidade, gostou que eu desse uns toques no “cass-tê-jano” como ela diz. Também há holandeses e holandesas, um enorme e loiro, cabelo comprido, é o Cookie e usa chinelos, apesar de estarem 15 graus e chuva a cântaros.

Estou mais aliviado, parece que afinal não é só chineses! Não é que eu tenha nada contra eles, há até quem me aponte como um deles, é só que eles são mais tímidos e não estão para grandes conversas. Mas são muito simpáticos e prestáveis. Ao almoço perguntei a uma chinesa como se fazia para aceder à internet da UTS e ela ficou a adorar-me. Noto um certo fascínio deles pelo Ocidente.

E no fundo isso é o melhor de Sydney, é esta mistura constante de olhos e de cheiros e de tipos de sapatos. É isto o mundo!

Numa outra perspectiva, como tem sido difícil arranjar quartos, vamos agora tentar reunir gente e alugar directamente uma casa. Vamos mudar de estratégia e se calhar vamos para Bondi, para ao pé da praia. Acho que vou hoje ver opções.

Entretanto, continuo à procura de emprego no GumTree, mas está difícil. Há muito mais anúncios de pessoas a procurar emprego do que a oferecer. Anúncios concupiscentes (aprendi esta palavra ontem e adorei) de indianas de pinta na testa e buço tenro a oferecerem-se para “qualquer tipo de trabalho”, anúncios de backpackers que se oferecem para a construção civil, anúncios de pessoas a procurar emprego em quintas de animais. Mas muito poucos anúncios de malta a oferecer emprego.

É uma questão de continuar a tentar.

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2 dias depois, Sydney

No dia 5 de Dezembro soube que tinha conseguido a vaga para Sydney e que me restavam cerca de sete meses para me organizar. Consultas médicas, tratamento do visto, escolha de cadeiras, uma série de burocracias que já me permitiram compreender que estes Australianos não estão para brincadeiras.

Depois de muita trabalheira, arranquei no dia 17 de Julho, e dois dias depois, Sydney. Parece que estes sete meses foram na verdade sete minutos, não consigo perceber como passou tão depressa – e o que mais me assusta é a certeza de que os próximos sete vão passar ainda mais rápido!

Mas o melhor é não pensar muito nisso.

Sydney é incrível. Apesar de ser Inverno, e de hoje estar a chover, continua a ser uma cidade animada. Às duas da tarde o Sol já vai baixo, provavelmente por estarmos perto do pólo Sul, e portanto não há muita luz. Mas mal esta acaba, vai tudo para os pubs beber cervejas.

Pelas ruas, vêem-se montes e montes de malta oriental. Em cada dez pessoas, apenas uma tem traços ocidentais. E eu só sirvo para piorar essa estatística, aparentemente. Há imensos semáforos, todos guiam à maluca e todos têm smartphones. Há milhares de anciãs chinesas de beiça gretada que entregam panfletos de auto-ajuda sobre um deus estranhíssimo cujo nome não me lembro mas deve ser Cenoura ou Soja. Todos os táxis e restaurantes de fast-food são operados por Indianos que não cheiram muito bem. Num restaurante destes, uma dose de nitrofuranos custa 10 dólares. Há milhares de sucursais do “Galo, Portuguese Restaurant” que serve o Prego Menu. Ao contrário do que possam pensar, estes restaurantes não são operados por portugueses, mas por Indianos que não cheiram muito bem.

No hostel, quem suja, limpa. Cada vez que bebo um copo de água, lavo o copo de água. Um prato, lavo o prato. Uma panela, lavo a panela. Há três frigoríficos enormes onde cada um guarda as suas coisas, devidamente etiquetadas, para ninguém roubar uns aos outros. A casa de banho é do povo, mas individual. A água é quentinha e forte.

A roupa é o pior. Em Lisboa, se tenho comichão nas costas, mudo de t-shirt. Em Sydney, se tenho comichão nas costas, coço. As t-shirts têm que durar, amigos. Não sou propriamente dado às tarefas do lar, especialmente no que toca à lavagem da roupa. Além do mais, por agora, enquanto não tenho casa, não tenho onde pôr as coisas sujas.

Mas também há coisas boas. A maior parte das pessoas que por aqui passam tem histórias engraçadas para contar, e é sempre bom ouvi-las e saber que não tarda vou ser eu a vivê-las e a contá-las – espero. Ordenhar vacas numa dairy farm não está nos meus planos, assim como não pretendo fugir de um possum enraivecido, mas ainda assim é interessante ouvir histórias de outros que o fizeram. Quem sabe se ainda não vou ter um encontro com um canguru ou com uma box jelly-fish.

Enfim, o plano para os próximos dias é encontrar uma casa, mas está complicado porque ou são todas um balúrdio ou então são quase na Nova Zelândia. Aqui é tudo caro, um pack de seis cervejas custa 16 dólares, 12 euros, uma grade de minis na capital Lusa. O que vale é que produtos essenciais como o leite têm um preço idêntico ao de Portugal.

A única maneira de ultrapassar isto é se se trabalhar. Em conversa com alguns companheiros de hostel, fiquei a saber que aqui pagam muito bem por qualquer trabalho, desde cafés a ordenhar vacas, e portanto acho que vou ter de me tornar trabalhador para me safar. Já me candidatei a algumas vagas, incluindo assistente de fotógrafo de casamentos, e agora espero que o destino me responda. Em último caso posso ir trabalhar para o Galo, Portuguese Restaurant.

Hoje vou tratar de arranjar uma bicicleta. Ontem comprei uma por 30 dólares através do GumTree, mas não tenho a certeza se não se terá desmontado durante a noite. Desta feita se calhar compro uma um bocadinho menos vinda directamente da sucata.

Mais novidades em breve.