Rocio e “Robinson Crusoé e o seu elaborado plano de legislação insular”

No último post expus a nossa promessa de comprarmos uma guitarra para animar as noites mais calmas e para servir de mascote aqui do número 34. Pois bem, dissemos que a compraríamos e assim o fizemos. Temos agora uma guitarra e chama-se Rocio, em nome de uma bela mulher que conhecemos por cá por terras do canguru, e é a nossa nova flatmate.

Está sempre a tocar, sem parar, de maneira que participa mais activamente na vida do lar do que qualquer um de nós. Comprámo-la por quarenta dólares (com estojinho) através do GumTree, o CustoJusto cá do sítio. Os argentinos sabem todos tocar, especialmente o Joaquín que é um craque nato. Dêem-lhe uma música qualquer, que ele vai ver os acordes e dois minutos depois já a sabe reproduzir com excelência. É um espectáculo, e por isso é que está sempre a tocar, em vez de termos as minhas coluninhas manhosas cujos sons normalmente geram discórdia, Que es eso, boludo? Horrible tema!

Como poderão imaginar, já o pus a estudar temas essenciais a impôr nesta república das Bananas, começando pelo já clássico Guaranteed, também o Stand By Me e ainda estou a tentar implantar o Cavaleiro Andante, mas os acordes aparentemente são bery dificult man. Continuarei a insistir.

Isto para tentar fazer-vos ver que a guitarra é mesmo uma excelente amiga. E como tal, há sempre alguém a tocá-la. Seja de manhã, à tarde, à noite, antes de ir sair, depois de ir sair, para acordar, para cozinhar, para boludiar – está sempre alguém a praticar. Às vezes dão pregos e fica desagradável, como aquelas aulas de música no quinto ano em que ninguém sabia tocar o miserável pífaro e o máximo que saía dali era uma desconjuntada mixórdia de silvos lancinantes, mas na maioria do tempo é agradável e faz companhia.

Por isso mesmo, e pela beleza do seu som e das suas curvas, decidimos baptizá-la Rocio, como vos disse. A verdade é que não foi uma coisa a que dedicámos muito tempo, e como a outra opção era Zutzco e o Paul não conseguia dizer bem, ficou Rocio, a nossa mascote.

E por falar nisso, finalmente me lembrei de vos contar aqui o nosso elaborado plano de legislação para este nobre pardieiro de onde vos escrevo. É que nós, à semelhança de Robinson Crusoé, também criámos um sistema de leis e directórias, traçadas com o intuito de instaurar a ordem e prevenir a insanidade mental das nossas pessoas. Em tudo somos iguais ao famoso náufrago – até temos uma mascote, só não se chama é Wilson.

Assim, comecemos pela loiça. Após acto eleitoral, foi imposto o sistema de limpezas proposto pelo Partido da Borga, a.k.a. Partido da Argentina. O plano eleitoral respectivo passava pelo seguinte: para começar, cada um lava a respectiva loiça de qualquer refeição que não seja almoço ou jantar. Isto porque, nestas duas, cada um lava também os respectivos pratos e copos, mas depois há um elemento apontado pelo tribunal que está encarregue de lavar também as “Common Things”. Common thing é, por definição imposta pelo Código da Javardice, tudo o que fôr utilizado com o intuito de alimentar quatro ou mais pessoas.

À semelhança de muitos planos eleitorais, esta solução parece ideal. Assim ninguém tem de lavar a sujeira dos outros, excepto num dia por semana, e são só três ou quatro panelas, o fogão e a toalha de mesa. Soa optimamente. Criámos então uma tabela com cerca de quatro semanas em que está claramente definido quem é responsável por cada dia. Lá está também designada a pessoa responsável por guardar as coisas nos respectivos armários, uma vez limpas e secas.

Nos primeiros dias, funcionou na perfeição. A cozinha estava sempre limpinha, havia sempre loiça disponível quando necessária e o chão estava aceitável. Mas uma semaninha depois, ou duzentas e quarenta horas talvez, começou a instalar-se a primeira erva daninha da sujidade e putrefacção. Começou com ocasionais esquecimentos, de pessoas que de facto não se lembravam de lavar os respectivos artigos. Depois progrediu para uma série de sinistros mais frequentes, e para um conjunto de pratos-de-ninguém que davam à costa do nosso já musguento lavatório. Junto destes, começaram a juntar-se copos,  talheres, cascas de fruta e resquícios de carnes duras de épocas megalíticas. Sempre a acumular, a empilhar, a sobrepôr.

Até que chegámos a um ponto, no outro dia, em que chegámos a um estado em que toda a cozinha era um exalante antro de miasmas e fumos orgânicos. O chão, esse, estava ainda pior do que após a house-warming party, cheio de permanentes graffitis de clara de ovo e folhas de salsa com corn flakes.

Decretámos que não podia continuar assim, que o sistema tem de mudar, etc etc, e evidentemente não mexemos a ponta e o mesmo sistema continua em vigor, apesar de já termos limpado o pior, por uma questão de saúde da comunidade. Pergunto-me quanto tempo durará.

Agora as casas de banho. Aconselho os leitores mais sensíveis a abandonarem a leitura a esta altura, e a voltarem quando escrever a próxima entrada neste blog. Para os mais corajosos, segurem-se bem nas vossas cadeiras. Segurem-se bem.

Neste requintado apartamento, há dois quartos de banho. Um deles, que viram no vídeo, tem uma pequena e inexplicável janela quadrada que dá para a rua, exactamente à altura compreendida entre o umbigo e as coxas, que não dá para fechar. E como se isso não fosse suficiente, o chuveiro é esquisito e frouxo, faz um barulho estranho e não tem altura suficiente para as torres que habitam estes metros quadrados. Então, na primeira semana, era muito engraçado e todos se vangloriavam das exuberantes danças que empreendiam junto da referida janela, para apreciação do público australiano e de quem mais estivesse a observar. Mas depois, perdeu toda a graça e todos ostentavam dolorosos torcicolos por estarem todos curvados no chuveiro. Então, subitamente as pessoas deixaram de tomar banho no referido lavabo e passaram a fazê-lo no outro, que é mais alto e menos exposto. A outra divisão ficou então conhecida por Shit Bathroom, por motivos óbvios que prefiro não explicar ou descrever com minúcia – não só por não ser muito agradável para os sentidos, mas também por me faltarem palavras suficientemente grandes para descrever a magnitude do nojo no estado mais puro e animalesco de uma orgulhosa pocilga.

Na outra casa de banho, como referi, é assim onde (quase) todos tomam banho, e quase ninguém desempenha outras actividades. Portanto, como decerto poderão vislumbrar novamente, não passa de um enlameado Alqueva escuro onde a superfície da banheira está repleta de detritos capilares e onde, todos gozam, há mais cabelo do que na minha cabeça.

As torneiras são cobertas por uma tenra carpete de pó que ninguém-limpa-porque-os-outros também-não-limpam e há um notório rasto de pegadas que decoram o chão e o tornam menos branco e aborrecido.

Na casa, é frequente ouvirem-se guturais secreções arrotais que se sobrepõem ao doce cantar da frágil Rocio, e que são nas palavras argentinas a forma mais digna de educação e decoro – especialmente à mesa e às refeições. É assim a nossa mais utilizada forma de cumprimento, juntamente com a frase que também usamos com frequência para todos os contextos, por soar bem e ser tão bela na sua simplicidade curta e versátil, “Fuck You”. O Paul, correcto alemão e educado praticante da etiqueta, limita-se a suspirar um inexorável mas resignado “Unbelievable” que ninguém ouve a não ser para achincalhar.

Aos almoços, normalmente cada um come a sua coisa, porque nem sempre o fazemos ao mesmo tempo. Os argentinos têm uma predilecção marcada pelos clássicos “fideos”: massa com salsa de tomate y crema como queijo por cima. Dizem que lhes faz impressão comer massa com carne ao lado. Para eles massa é só por si uma refeição. Para o Paul, a refeição preferida é ‘Chili con Carne‘, um alegado prato mexicano que deixa a casa a tresandar a pimentos e a outros elementos nefastos cujo nome não sei dizer.

Ao jantar, por outro lado, costumamos fazer uma refeição para todos, e jantamos em conjunto nesta contorcida família onde se vive sem preocupações e no mais fraterno ambiente de paródia e animação.

Se bem me conhecem, devem estar a indagar como é possível o meu eu-limpezas ainda não se ter fartado deste indescritível pântano de cheiros e restos, e digo-vos que a verdade é que também me pergunto o mesmo constantemente. É verdade que já perdi momentaneamente as estribeiras uma outra vez, mas na maior parte do tempo acho graça e opto antes por me rir.

Quando estou farto tenho sempre o quarto meu Templo, que me esforço mais para manter em condições. No resto do tempo, uno-me à malta e à Rocio com orgulho, e não consigo não gostar deste denso matagal a que chamamos Casa.

No outro dia estávamos a falar de como seria esta jornada tivéssemos nós ficado numa residência da Universidade. Quase em família, chegámos à conclusão de que não teria metade da graça e não iria contribuir em nada para a nossa formação nas Coisas do Lar.

Portanto, apesar do pandemónio e da sujeira, fico diariamemte feliz por ter vindo parar a esta casa, e não consigo imaginar um melhor destino para uma estadia nesta nobre cidade onde já colecciono um punhado de inesquecíveis recordações. E isso, só por si, já é suficiente para olhar para o lado e optar antes por alinhar e rir.

Dizem que a vida são dois dias, portanto mais vale fazer directa.

As Montanhas Azuis

Neste fim-de-semana decidimos fazer uma excursão até às Blue Mountains, a cerca de cem quilómetros de Sydney.

Estas Montanhas, como podem imaginar, não são azuis, receberam antes tal nome devido aos seus milhares de eucaliptos, que se estendem ao longo de toda a região e libertam uma substância que cria uma neblina azulada e opaca, especialmente durante a manhã.

Como ficam aqui ao lado, achámos que valia a pena ir, principalmente quando o bilhete de comboio custa só quatro dólares e dez cêntimos, se escolhermos desconto de estudante.

No sábado acordámos cedo, às seis, para apanharmos o comboio das oito e chegarmos lá a tempo de ainda aproveitar o dia. Escusado será dizer, numa casa onde habitam dois portugueses e três argentinos, que nos atrasámos com esplendor e que evidentemente perdemos o comboio. Felizmente ainda não tínhamos comprado os bilhetes, portanto limitámo-nos a esperar pelo próximo enquanto ouvíamos música nas minhas coluninhas, enquanto o Paul estudava, pois hoje tinha um quiz, enquanto gozavam com o facto de eu ter muitas tralhas e enquanto os mais sonolentos continuavam a praguejar, Que paja, boludo.

O comboio lá chegou, e depois de o galgarmos de lés a lés, lá encontrámos uma carruagem com lugares para todos e para os nossos pertences. A viagem durou duas efémeras horas que passámos a dormitar, de testa na janela, a ver a vida a passar suavemente, em escadinha, primeiro com prédios enormes de cimento maciço, a seguir com casas encarnadas de dois andares, depois com estábulos ocasionais e uma ou outra ovelha, e finalmente com uma planície ondulada ao chegar às Montanhas.

Chegámos a Katoomba já sobre as onze, a aldeia principal da região onde decidimos basear o nosso centro de operações. Procurámos rapidamente pela povoação o hostel mais barato, e acabámos por escolher o Katoomba Mountain Lodge. Largámos tudo no nosso dormitório frio e lúgubre, sem perder tempo e sem nos querermos arriscar a encontrar baratas ou ratazanas, e arrancámos para a manhã fresca.

Cheirava bem. Um cheiro frio que arranha as narinas e limpa as entranhas. Tínhamos todos mãos que não sentíamos, de tão geladas, cuidadosamente postas em bolsos ou enroladas para dentro das mangas da camisola, e andávamos a saltitar e de queixo-ao-peito, para aguentarmos a frialdade amiga do Inverno.

Caminhámos pela aldeia até Echo Point, um miradouro debruçado sobre as Three Sisters, principal atracção das Montanhas. De acordo com a lenda, houve em tempos uma guerra que obrigou a que as três princesas irmãs fossem escondidas dentro das rochas, para que ninguém as tomasse. No entanto, devido às voltas do tempo e da morte, alguém se esqueceu de as resgatar, pelo que ainda há quem acredite que as irmãs continuam lá enclausuradas, cada uma no seu pináculo.

Claramente que também acredito nesta versão, e consigo até imaginá-las lá dentro a bater na pedra dura e a gritar socorro, mas independentemente disso, a história é engraçada, e acima de tudo a vista sobre o vale é formidável.

Tirámos montes de fotografias, ritual já cimentado com os argentinos, e seguimos pela Prince Henry’s Track, um trilho que corre junto aos penhascos ancestrais que separam o vale de eucaliptos dos planaltos verdes. Enveredámos por uma série de bifurcações e escadinhas, sempre no meio da vegetação, à medida que o Sol ia caindo e que iam surgindo as primeiras queixas e cansaços. Pelo menos o frio já não nos alcançava, principalmente porque estávamos em movimento, mas também porque íamos cantando e assobiando músicas para quebrar o silêncio ecoante e marcar o ritmo da passada.

Fomos até às Katoomba Falls, umas raquíticas cataratas que ficavam no caminho, e seguimos até à Great Stairway, uma escadaria gigante com mais de mil degraus, que nos levaria ao vale silencioso lá no fundo. No entanto, optámos por não a descer, principalmente por preguiça, mas oficialmente por já ser tarde e por ser demasiado caro ir antes no famoso Scenic Railway, o comboio mais inclinado do mundo ou assim, que corre verticalmente rente à encosta avita e quebradiça.

De maneira que empreendemos a jornada de regresso, com passagem pelo supermercado para comprar mantimentos para o jantar e pequeno-almoço, e regressámos ao hostel esfomeados e algo desiludidos, principalmente os argentinos que esperavam ter visto pelo menos um canguru ou um koala.

Jantámos alarvemente na asquerosa cozinha do hostel abandonado, e depois seguimos para um pub local, para vermos o ambiente e aproveitarmos a viagem. Quando chegámos já sobre as nove, era quase hora de fechar, mas encontrámos uma enorme animação. Dezenas de australianos se juntavam ali, barulhentos e foliões, a beber cerveja, a conversar aos berros, e a ouvir com deleite e ruído a banda que tocava ao vivo. Alinhámos no espírito, comprámos the cheapest drink, please, sentámos ao pé da banda e lá ficámos, bebericando, conversando e deixando que a cerveja nos puxasse lentamente para um torpor feliz de álcool e música. Debatemos os planos para o dia seguinte, o Paul calculou até ao segundo a hora a que nos deveríamos levantar, e ainda cantámos e batemos o pé ao som das bandas que iam rodando frequentemente. Comentámos como ali as pessoas eram verdadeiramente australianas, verdadeiramente simpáticas e G’day mate, ao contrário do que acontece em Sydney, cidade que adoramos, mas que está inevitavelmente corrompida pelas influências europeias e asiáticas que lhe sugam a simpatia e o carácter tipicamente relaxado e amigável. Falámos com vários nativos, rimo-nos, discutimos os hábitos nocturnos dos diferentes países, e ainda sobrou tempo para aplaudirmos um corajoso e embriagado velhote de cabelo comprido, vestido de ganga dos pés à cabeça, que teve a audácia de se pôr de pé à frente da banda, fazendo danças ridículas que não sei descrever, muito contente, muito bêbedo, e com uma notória mancha de cerveja-já-processada que lhe cobria a braguilha e se estendia pelas pernas abaixo. Ninguém se importava, muito menos o próprio, e se serviu para alguma coisa foi para acentuar os aplausos histéricos e brindes ao engraçado velhote que se tornou assim a estrela da noite.

Arrancámos assim de volta para o hostel, já sobre as onze, hora de fecho. O hostel foi palco de grandes aventuras nos beliches débeis e ameaçadores, no quarto gelado onde Dios, me muero de frio, boludo, e onde as casas de banho tinham janelas inexplicavelmente abertas lá para fora, para o ar gelado e cortante da noite de inverno. Como não tínhamos alternativa, rimos de todas estas condições, da nossa própria desgraça e da possibilidade iminente de encontrarmos baratas debaixo das nossas cabeças, ou de perdermos para sempre o olfacto ao snifarmos as repugnantes e minúsculas mantas que nos foram fornecidas, e metemo-nos cada um no seu respectivo casulo, a conversar e a queixar-nos com risota de toda aquela precariedade.

Mas o cansaço era grande e portanto acabámos por dormir, bem ou mal, até às sete da manhã do dia seguinte, esperando que fosse melhor que o anterior.

Tomámos o pequeno-almoço e constatámos que afinal não podíamos ir ver as grutas conforme tínhamos planeado, porque o autocarro que nos levava até lá custava 53 dólares por pessoa. Duas vezes o preço da entrada nas Jenolan Caves propriamente ditas.

Amuámos um bocadinho, mas decidimos não dar parte fraca e fomos até Wentworth Falls, outra aldeia nas Montanhas, famosa pela sua catarata de trezentos metros que cai até ao fundo do vale, de forma semelhante ao tal comboio de que vos falei.

Almoçámos numa zona de piqueniques junto ao começo do trilho, sandes que confeccionámos toscamente no hostel-cemitério, e depois arrancámos pelos secretos trilhos sinuosos que vão descendendo e entrecruzando as cataratas, ora para cá ora para lá, na tarde que se tornara quente. A vista era espectacular e muito mais memorável que a do dia anterior, principalmente por os trilhos serem mais naturais e menos man-made, e também por sermos constantemente banhados por salpicos refrescantes que o vento roubava às cataratas e atirava contra nós. Tirámos imensas fotografias nos penhascos que terminam bruscamente ante o vale, e tomámos alguns minutos para ficar só quietos, a tentar ouvir o barulho final da água a cair lá em baixo, numa analogia rebuscada e pirosa ao filme Into the Wild.

Passámos o dia por estes trilhos, bebemos água cristalina da cascata embora fosse proibido, descansámos dentro de grutas seculares aquecidas pelo Sol tardio, contámos chistes, e delineámos planos futuros de viagens mirabolantes e rituais a impôr em empresas vindouras. Decretámos que vamos comprar uma guitarra para nos acompanhar pelo Mundo, uma companheira de viagem para os proximos meses, e decidimos também que aquele fora um dos melhores dias na Austrália, na verdadeira Austrália, e que apesar de não termos ido sair, tínhamos passado um bom bocado, sem arrependimentos e com a alma limpa pelo ar puro da Montanha.

Regressámos cansados no comboio escuro que chiava pelos carris, dormitando, e antecipando com entusiasmo a viagem pelas terras neo-zelandesas, jornada que durará dezoito dias e que terá início no dia vigésimo segundo do nono mês.

Para esta semana, espera-nos um penoso inferno de trabalhos escolares para entregar no próximo fim-de-semana, mas não nos arrependemos de ter ido às montanhas, e não nos importamos porque até agora tem valido a pena.

Dizem que vale sempre, quando a alma não é pequena.

PS: Podem ver mais fotografias no álbum de facebook.

Nos passados três dias

Nos passados três dias estive em vários sítios e com várias pessoas diferentes, que vos passo a contar agora.

Para começar, na quinta-feira à noite pude finalmente mostrar ao mundo a minha requintada mansão, mas esqueci-me de reforçar com veemência suficiente o triste facto de, normalmente, a casa não estar assim tão limpinha… É que íamos ter a nossa house-warming party nesse dia, de maneira que serviu de pretexto para limparmos o que já estávamos para limpar há duas semanas.

Evidentemente, no dia seguinte, todos esses esforços se revelaram inúteis, visto que a casa ficou outra vez um alcoólico esterco, um mar de espumante-barato e beatas, caricas e batatas fritas onde todos nadaram com os seus sapatinhos sujos e peganhentos.

Vejam o antes e depois do chão…

Apesar disso, a festa foi impecável. Veio imensa gente, incluindo amigos de amigos que ainda não conhecíamos, e portanto deu para fazer amizades e aprofundar outras. Jogámos jogos de ingerir com cartas espanholas, jogámos um pseudo beer pong com aldrabadas regras que íamos inventando à medida que o jogo se desenrolava e nos convinha, e acima de tudo rimos de histórias engraçadas que, sob o efeito terno do álcool, eram ainda melhores. Sobretudo as tentativas de reproduzir as línguas uns dos outros. Experimentem pedir a um alemão para fazer o som “rrr” (com a língua enrolada, como os espanhóis dizem em Raja). Prometo que não se vão arrepender, especialmente se já levarem um ou dois copitos no bucho.

Enfim, a seguir tentámos ir sair, mas esquecemo-nos de um pequeno detalhe, é que estamos em Sydney e as coisas fecham cedo! Como não demos pelo tempo passar, quando saímos de cá já eram quase três, pelo que tudo estava prestes a fechar… Solução: McDonalds, essa nobre discoteca que abre antes de todas as outras e fecha muito depois, sobretudo porque nunca fecha e tem gelados de trinta cêntimos.

No dia seguinte limpámos o tal lamaçal em que a nossa casa novamente se encontrava, e para comemorar, recebemos uma notificação oficial do administrador do prédio, onde depositou toda a sua ira na frase célebre nestas ocasiões “Next time we will have to kick you out”. Rimo-nos, mas não achámos gracinha nenhuma. Mas fica sempre bem dar aquele ar.

Durante o dia não fizemos um charuto, à excepção de limpar, arrumar e mandar uma corridinha. À noite tínhamos jogo de futebol na UTS, o que serviu de “plano para o dia”. Chegou assim a tal data que eu andava a tentar adiar, e não tive outro remédio se não jogar e manchar a excelente conotação que se atribui aos portugueses sempre que alguém fala de Portugal. Fui um autêntico desastre lá na frente, só falhei passes e remates, ia mandando um espalho a certa altura, e portanto comecei a espumar com o já habitual mau-perder e irritação-por-ser-tosco. E os meus colegas de equipa também eram terríveis! Míseros franceses todos estranhos a correr, e o Paul todo girafa, todo Peter Crouch, todo irritado também por perdermos sempre. O que me safou foi que pelo menos na baliza não me saí assim tão mal, e ainda efectuei umas boas defesas, seguindo conselhos de alguns amigos que um dia me ensinaram, Velho há só uma regra, o primeiro poste é teu.

No sábado tivemos o tão célebre jogo de rugby dos All Blacks contra os Wallabies. Estávamos todos muito entusiasmados para este evento, e as expectativas eram altíssimas. Partimos cedo para não perdermos nem um segundo, e arrancámos em manada para o Olympic Park nos subúrbios de Sydney, um parque enorme construído para as Olimpíadas de 2000. O ambiente cá fora era animado, com música, com tendinhas de comidas e kebabs e o chão muito limpinho, sem copos de cerveja pisados nem nada, bem à maneira Australiana. De lado no recinto, havia uma jaula enorme guardada por dois enormes gorilas que verificavam os IDs. Era a jaula dos bêbados, o local fechado onde estão todas as lojas que vendem álcool e onde todos têm de comprovar que são maiores de 18! Impressionante. Lembrei-me de Lisboa e da maneira como todos deitam as Super Bocks vazias para o chão, como todo o recinto é uma jaula de bêbados, e como todos bebem, até os mais inexperientes putos de doze ou treze anos.

Estivemos um bocado na jaula, bebemos uma Júlia que custou quase o preço de uma grade lusitana, tirámos montes de fotografias e depois fomos para o estádio.

O ANZ é engraçado, mas sinceramente não fiquei tão impressionado como estavam os argentinos. Suspeito que se deve ao facto de os nossos estádios serem também muito bons, e portanto este não ter sido grande novidade.

Escalámos as escadas todas da zona F, até parecia que estávamos a treinar para um tour-de-stade, e lá encontrámos os nossos lugares na penúltima fila, longíssimo do relvado. Ainda por cima, como esperado, tive o azar de receber o único bilhete que estava separado de todos os outros, na fila atrás, pelo que vi o jogo sozinho. (e não sei se vi é o termo correcto, porque me esqueci dos (bin)óculos e não via um charuto).

Antes de começar os jogos, assistimos ao alegado Haka, muito embora mal se visse e fosse em modo mute, porque não ouvimos rigorosamente nada. Não percebo porque é que ninguém se lembrou de pôr um microfone ou assim…

Por isso, por todos estes motivos, não gostei nada! Sou mesmo obrigado a dizer que foi uma seca gigantesca! O ambiente é entorpecedor, ninguém fala, grita, diz palavrões ou canta cânticos, o jogo está sempre a ser interrompido devido às inúmeras infracções, e quando não está, não passa de um monte de cavalares brutamontes a empilharem-se uns em cima dos outros. Provavelmente estou a ofender alguns amantes do desporto que me lêem, mas sou obrigado a dizer mesmo o que penso! Sei que há uma estratégia por detrás do jogo, e admito que houve algumas jogadas que foram bem engendradas, mas a maior parte do tempo é para mim uma selvajaria. Prefiro um milhão de vezes ver futebol! É que ainda por cima, à excepção de quatro ou cinco ondas que houve, não se verificou a mais ténue celebração, grito ou acusação, excepto quando havia ensaios – e mesmo assim nada de especial. De resto, silêncio total, à excepção da grupeta bêbada de australianos que estava ao meu lado a fazer barulho e a prestar a atenção a tudo menos ao jogo.

Ainda assim, felizmente os outros gostaram imenso. Estavam todos contentes, tiraram fotografias a tudo e com todas as poses e composições (começo a achar que têm uma costela japonesa), e aproveitaram ao máximo, portanto eu também acabei por gostar.

Agora, uma coisa é certa: tão cedo não ponho lá os coutos!

Findo o jogo, voltamos para casa para jantar o tão adorado pollo (aqui pronunciado -chô) e depois fomos para o casino ver o jogo dos Pumas no Sports Hall.

No domingo acordámos tarde, eu ainda desiludido, e fomos para a praia porque estava Sol. Decidimos variar, pelo que saímos em Bondi mas fizemos a estrada que corre junto ao mar para Sul, e passámos assim pelas praias de Tamarama e Bronte, espectaculares na luz baixa. O Joaquín ainda mandou um surfzinho – ele e o Vasco já têm pranchas e são os mais experientes, principalmente o Vasco – e os restantes passeámos e explorámos a área envolvente.

E ainda encontrámos uma infinity pool espectacular que nos comprometemos a experimentar mal fique calor.

Têm sido dias bem passados, tirando os trabalhos de faculdade que temos tido, mas agora estou verdadeiramente ansioso é pela viagem às Blue Mountains na sexta-feira. Espero que valha a pena!

Até lá!

O Mundo é uma Sala de Aulas

Conforme muitos têm pedido, aqui vos escrevo sobre a vida escolar na UTS.

Ao contrário do que me contavam e do que pensava a sabedoria popular, a faculdade aqui não é nenhuma brincadeira. Toda aquela conversa de em Erasmus não se efectuar um charuto é uma enorme mentira, porque pelo menos aqui em Sydney trabalha-se e bem. Nem é que as cadeiras sejam difíceis em si, mas são custosas e exigem trabalho “regular e sistemático”, como as professoras do terceiro ciclo sempre recomendaram mas sem sucesso.

Estou a fazer quatro cadeiras, com aproximadamente a mesma carga que teriam em Lisboa. Inscrevi-me em Marketing Foundations, Strategy: Theory and Practice, The Financial System e Transnational Management. Destas, a pior é sem dúvida a de Finanças. Há que trabalhar imenso, e temos sempre trabalhos de casa enormescos e cheios de perguntas que esmiúçam o livro obrigatório até ao último detalhe. É chato, mas depois quando chegar o exame já está tudo minimamente estudado…

Por outro lado, nas práticas, aqui chamadas de tutorials, a folha de presenças tem cerca de vinte nomes, aos quais correspondem vinte apelidos, dos quais apenas três têm mais de três letras e não se assemelham a Xao, Lin, Han ou Zhu. Portanto, noutras palavras, a população da aula tem toda origem em terras da Grande Muralha, ou outras de semelhante índole étnica. Isto inclui o professor.

São todos muito trabalhosos, têm todos portáteis Apple, têm quase todos borbulhas e cabelos estranhos e grandes. É bastante usual encontrarmos discretos cabelos côr-de-abóbora ou secretas madeixas lilás que a todos passam despercebidas, excepto a mim, que não consigo não comentar com quem estiver ao meu lado. Gosto da maneira como já é normal, como se calhar sempre o foi, porque ninguém quer saber e porque a côr de cabelo de uma pessoa não quer dizer nada sobre ela. Pelo menos aqui.

Na minha aula de Transnational Management, tenho o Mundo. É mesmo impressionante, porque há representações de países de todos os cantos do globo. Há gigantes Americanos, há esbranquiçados Israelitas, há tímidos Sri Lankeses, há lânguidas inglesas e há também, talvez por mero acaso ou por engano informático, executivos Australianos e damas-de-escritório que trabalham em part-time e apontam tudo o que a professora diz, mesmo que não tenha nada a ver com a lição. A professora, essa, é uma gorducha simpática e Indiana que promove a discussão em grupo e estimula a conversação. Além disso tem a tal maneira engraçada de dizer os t’s, e as palavras compridas como development ou dehidration. Tem piada porque é uma total info-excluída e vê-se literalmente à rasca para lidar com todo o equipamento altamente sofisticado que as salas têm. É que os quadros são virtuais, e têm um painel de controlo estilo nave espacial embutido em baixo, onde há vários botões coloridos para limpar o retábulo, para mudar de côr, para mudar a espessura do pincel ou para pôr vídeos da internet. Seria o brinquedo perfeito para os meus queridos primos mais novos, mas claro que para a anciã Indiana não passa de um chorrilho de manivelas e alavancas incompreensíveis que provocam o riso de todos e levam as Australianas a fazer pouco dela. O ambiente nesta cadeira é mais informal, é costume entrar-se e sair-se da sala conforme apraz, sendo que a sala tem apenas 20 ou 25 pessoas, e todos refilam, falam ao mesmo tempo e atiram piadolas que normalmente não teriam graça, não fosse aquele um ambiente de aula em que supostamente é proibido rir.

Marketing é diferente, é mais sério, mas de certa forma também descontraído, sobretudo porque tratamos de temas que não são pesados e envolvem muitos exemplos da vida real. O professor das teóricas é o típico americano, com uma enorme barriga de aluguer que o desequilibra ao andar, mas fala bem e tem graça. Traz sistematicamente exemplos de coisas com que nos identificamos como a Coca-Cola ou a Victoria Bitter, diz graçolas e pelo meio ainda nos ensina uns quantos termos e técnicas de marketing. As aulas duram duas horas, mas acaba por ser tranquilo porque há sempre uma pausa a meio, para fazer chichi, beber água ou tão simplesmente esticar as pernas. Depois, nas práticas, respondemos a várias perguntas do livro, fazemos análises SWOT e coisas do género, e trabalhamos quase sempre em grupo, muito embora praticamente ninguém faça nada dos trabalhos que estavam previamente marcados e anunciados online.

Em Estratégia, a professora das teóricas é a mesma das práticas e é a típica Martinha, muito magrinha, muito querida, muito arrumadinha, gosta muito de nós e de ensinar. Também ela é boa oradora e esforça-se por dar bons exemplos que nos prendam e que nos ajudem a perceber melhor. Visionamentacionalizamos imensos vídeos no YouTube e aproveitamos a tecnologia das salas até à última. Vídeos do CEO da BCG a explicar a estratégia da empresa, vídeos do Cirque du Soleil e da sua estratégia de diferenciação, etc. Nas práticas, analisamos casos práticos e partilhamos quais são os nossos vídeos preferidos do TED talks, entre outras actividades.

Por último, o bicho papão, as Finanças, são-nos dadas por um gordito Australiano que fala mal todos os dias e tem odiáveis slides que mal se vêem mesmo com lunetes, míseros diapositivos de matérias de processos de transacções bancárias, de regras de empréstimos para casas e de taxas de juro. É certamente a nossa disciplina mais difícil, mas estou confiante de que a conseguiremos superar. Dia 2 já temos um ensaio para entregar… Vamos lá ver que tal me saio…!

As aulas, como já disse, são todas modernas e espalhadas pelos vários prédios que compõe a UTS e se distribuem ao longo de dois ou três quarteirões diferentes. Cada sala tem um código tipo CM05C.03.24 que é o que nos permite encontrá-la. Lê-se: City Markets, Building 5 Block C, 3rd Floor, Room 24. Ao príncipio isto fazia imensa confusão, chegávamos sempre atrasados às aulas (dez minutos por sermos portugueses e mais dez por não encontrarmos o lugar) e sempre sem os materiais necessários. O que vale é que ainda estavam todos curiosos por sermos de Portugal. Agora já passou a novidade, mas também já somos ases de Ultimo (o bairro da faculdade) e chegamos a tempo e com (alguns) materiais.

Portanto já estamos totalmente embrenhados em estudos. Temos sempre trabalhos de casa, leituras para actualizar, e agora começam também os trabalhos individuais e de grupo que temos para entregar. Afinal de contas, estamos a três semanas dos testes intermédios.

Não obstante, isso não nos impede de fazer nada, até porque normalmente temos bastante tempo livre apesar de tudo. Não se esqueçam que não tenho aulas à terça e à sexta!

De maneira que já fui dar uma corridinha, já fui também ao ginásio, já dei aí uns passeios pela cidade que é enorme e que ainda tem tanto para ver e conhecer – e o melhor de tudo, já combinámos várias viagens – apesar de nada estar ainda definitivamente marcado devido a hesitações e dificuldades de compatibilização de horários.

Assim, este fim de semana temos o jogo de rugby dos All Blacks vs. Wallabies, no próximo vamos fazer uma excursão de três dias às famosas Blue Mountains aqui perto; na última semana de Setembro, Spring Break, vamos passar uns 10-12 dias à Nova Zelândia, e depois, quando voltarmos, vamos a Melbourne, duas semanas depois. Ainda nada está muito bem definido, excepto a do próximo fim de semana que já decidimos ir de comboio, mas estou contente por estar tudo alinhavado.

Entretanto, este fim-de-semana é também época de house-warming parties! Haverá uma no nosso apartamento amanhã com comes e bebes, e outra no apartamento da Stephanie, a tal enigmática Chilena de que vos falei no início, mas no Sábado, depois do jogo. Na sexta há festa do 9º Piso na Yura, uma das residências da faculdade, portanto temos o fim-de-semana bem preenchido.

Hoje acho que vamos experimentar outro bar, o Scary Canary!

Amanhã prometo mesmo fazer o filme da casa e uploadá-lo-ei assim que puder, juro! Bem sei que tenho adiado isto durante imenso tempo, mas não é mesmo culpa minha!

Na próxima publicação descreverei como tem sido aqui a vida a seis, como nos temos organizado e contar-vos-ei tudo sobre o elaborado plano de limpeza que desenvolvemos e que, estou seguro, vai gerar muitas polémicas e histórias engraçadas de mefíticas produções.

Até lá, beijinhos e abraços para todos!

PS: Fico contente por ver que, não só a UTS, também este blog é o Mundo. Gosto de ver como todos me têm seguido da sua parte da Terra!:

Camas, Consertos, Cozinhados

Os primeiros dias na minha nova casa têm sido uma animação. Para começar, uma das estruturas camais que comprámos tinha um defeito qualquer (havia qualquer coisa a bloquear a entrada de um parafuso), portanto tivemos de a levar de volta ao IKEA e trocá-la por uma nova. O que vale é que, devido à nossa profunda incompetência, já íamos lá voltar outra vez de qualquer maneira – para comprar todas as coisas de que nos tínhamos esquecido na primeira viagem.

Foram todos para o IKEA excepto eu, que tive de ficar em casa a tratar de outros problemas. No último post, não sei se se recordam, disse que tinha lavado a roupa na máquina cá de casa – mas falei antes de tempo. O raio da máquina encravava sempre a meio, cheia de roupas minhas, e não funcionava nem por nada. Fazia a primeira metade do programa na perfeição e depois encalhava! De tal forma que as minhas roupas estiveram lá metidas durante quase vinte e quatro horas, toda uma colecção de peúgos que tenho vindo a germinar e a suar desde que cheguei a esta nobre cidade, mais boxers, todas as minhas boxers (excepto as que tinha vestidas) e t-shirts, camisas, calças. O principal factor comum a todos estes artigos é o seu marcado odor a gorgonzola envelhecido.

Esta fragrância começou a alastrar-se pela casa – especialmente quando desisti e enfiei toda esta mixórdia de derivados do leite na máquina de secar – e estava a tornar-se impossível. Tanto para a casa, como para a saúde da minha roupa que já estava em banho-maria há muito mais tempo do que o recomendado.

Então, pedi dispensa da segunda viagem ao IKEA, até porque já tinha tudo o que precisava, e fiquei em casa a tratar do assunto. A única condição imposta foi que eu fosse ao supermercado e cozinhasse o jantar. (belo negócio.)

Peguei numa saca do lixo, porque era de lixo que se tratava, e fui à máquina de secar buscá-lo. Procurei a lavandaria aqui mais perto, entreguei tudo ao coreano que a dirigia, pedi-lhe que lavasse tudo, regateei o preço, pedi várias vezes para ele repetir o que tinha dito porque falava baixo e mal, e fui-me embora. Primeira parte do problema: resolvida com facilidade. Resta agora arranjar a máquina.

Em toda a minha vida, sempre gostei de montar puzzles e legos, mas nunca tive muita queda para limpar filtros de electrodomésticos ou para verificar se há calcário em tubagens. Em Sydney, isso mudou. Depois de fazer o download do manual de instruções da máquina, andei para lá a ler a secção de troubleshooting, a mexer em várias torneiras, a apertar roscas, a limpar filtros nojentos onde se alojavam opulentos novelos de pó e pelos, e a verificar ligações à electricidade. Depois, meti três camisas dentro da máquina – não quis pôr muita coisa, não fosse aquilo explodir ou assim – e liguei o complexo aparelho. Funcionou. Funcionou!

Acreditem que foi uma excitação, fiquei mesmo satisfeito por ter ultrapassado este obstáculo. Quando as três camisas saíram de lá de dentro, a cheirar a fresquinho e a armário-de-Lisboa, confesso que mandei um grito de ipiranga que ecoou pelo prédio. Finalmente!

Sobrou então tempo para ir ao supermercado comprar umas pernas de frango para o jantar. Não sabia muito bem como cozinhá-las, mas a ilustre Rose ajudou-me através do Facebook e também vi umas receitas na internet. Fiz também umas cenouras e uma dose industrial de arroz conforme me pediram os argentinos – make a lot, I am so starving man, such starving.

As pernas ficaram boas, excepto em algumas partes onde não ficaram bem cozinhadas, uma vez que o pirex era mínimo e estavam todas apertadas lá dentro. Contudo, isso não impediu toda a gente de alarvar e de aplaudir o arroz amélio com rasgados elogios.

No final do banquete, ganhei duas novas alcunhas. Papi porque arranjo as coisas. Mami porque cozinho para todos. Até acharia graça, não antecipasse eu o incontornável destino de qualquer dia me chamarem logo Família, visto que sou eu praticamente o único a fazer tudo. Enfim, o estatuto de ukra desde sempre me perseguiu…

No dia seguinte estava um tempo péssimo, como hoje, uma ventania de fazer tremer as janelas, daquelas em que toda a casa parece uma chaleira em ebulição, a assobiar, a silvar. Como não podíamos fazer nada que envolvesse outdoors, decidimos ir ao Sydney Aquarium, uma vez que é coberto e não vale a pena ir quando estiver bom tempo.

Foi divertido, apesar de já ter ido, especialmente porque a companhia era diferente e porque os restantes nunca tinham visto um aquário como deve ser, só coisas manhosas que existiam nos respectivos países. Tiraram milhares de fotografias a tudo o que mexia e a tudo o que não mexia, falaram com todos os animais, apontaram para todos os animais, Mira ese, boludo, tremendo!

O ponto alto foram os tubarões e as fotografias que tirámos com eles no background, a fazer caras de assustado, a mostrar os dentes, a apontar para lá, enfim, tudo o que um grupo de turistas japas faria ao som dos seus característicos uuuuuhhs e oooohs.

Passámos lá umas boas horas, mas sempre a rir uns dos outros, das invenções da Juli que subitamente sabia identificar o sexo de quase todas as espécies, do Paul com a sua máquina a tirar fotografias a tudo, e sobretudo do Diego, cujas tiradas me lembraram alguns primos que tenho. “Hey look, there is a pokemon!”, mas afinal era um ornitorrinco. Ou então quando estávamos no túnel dos tubarões, com imensa gente lá dentro, e vira-se aos berros “Look, it has huge tits!”, quando na verdade o que ele queria dizer era teeth

À noite fizemos uns bifes com arroz e arrancámos para uma festa que havia num bar da faculdade, onde também nos divertimos imenso e encontrámos toda a gente que conhecemos. Havia uma banda a tocar bons sons ao vivo e um clima de grande festa. Lá em cima, havia também um DJ mais alternativo que estava a pôr todos ao rubro! Foi o primeiro sítio onde a música não era só comercialão e ainda ouvi uns bons sons!

Depois voltámos para casa, fizemos o tão célebre pós-noite na nossa cozinha e fomo-nos deitar.

Entretanto acordei, e por agora acho que vou só tomar o pequeno-almoço, porque ainda está tudo a dormir a não temos plano para hoje…

Até à próxima!

PS. Agora começam as datas festivas nas terras Algarvias e começo a ter saudades de todos. Um grande beijinho para vós e especialmente para a minha fiel Tia Pinha cujo aniversário foi ontem!

Capítulo Segundo

No dia seis de Agosto, o primeiro dia da minha terceira década de vida, finalmente arranjei casa em Sydney. Recebemos uma chamada de manhã, era uma das milhares de agências que contactámos para nos dizer que a nossa candidatura tinha sido aprovada. Nem queríamos acreditar. Passadas duas semanas a migrar de hostel para hostel, finalmente íamos poder assentar arraiais e montar o estaminé.

Depois de uma correria de dia, sempre de um lado para o outro, primeiro para a UTS, depois para o hostel, depois para o banco que fechava às quatro, mas já eram três e meia, não, não, já eram um quarto para as quatro, rápido, temos que ir ao banco para comprar um cheque com seis semanas de renda adiantadas; rápido, temos de nos despachar, mas não vamos ter dinheiro suficiente numa só conta, não faz mal, usamos várias contas para pagar o cheque, cá na Austrália pode-se fazer isso, rápido…

Lá conseguimos. Às três e cinquenta e oito tínhamos na mão um cheque no valor de 5400 dólares para selarmos o contrato. Demo-lo evidentemente ao responsável Alemão para o guardar no seu casaquete azul com bolsos, e fomos para a agência. Assinámos o contrato.

Gentlemen, we just got ourselves a house.

Restava apenas uma noite no hostel, que passou evidentemente muito rápido. Eu quase sem dormir, a pensar em todas as coisas que ainda teríamos de resolver na nova casa: internet, gás, electricidade, camas, mobília em falta. Os argentinos diziam-me que não me preocupasse, porém eles parecem ter adoptado com relativa facilidade o hino nacional “No worries, mate”.

De maneira que no dia seguinte acordei cedo e fiz as malas, ainda feitas, porque no hostel ainda não tinha tido espaço para as desfazer, e arranquei para sempre do Eva’s backpackers. Fui à agência buscar as chaves, assinei milhares de papéis cujo conteúdo praticamente ignoro – qualquer coisa sobre as carpetes da casa, qualquer coisa sobre o barulho, qualquer coisa sobre pendurar quadros na parede – e recebi as chaves. Lembrei-me dos anúncios de carros em que dizem “15000 euros chave na mão” e compreendi porque são um exemplo de bom marketing. Chave na mão é do melhor. Acreditem.

Arranquei para casa, pertíssimo da agência imobiliária, e lá deixei a minha primeira fornada de tralhas, malinhas, maletas, mochilas e saquinhos. Larguei tudo na entrada e abanquei no sofá branco da sala. Ainda nem acredito.

A casa é um bocado bimba, mas altamente moderna. É um sexto andar de um prédio recente, em Pyrmont, bairro calmo e residencial estilo Restelo, com vista para o mar dos dois lados da península de Pyrmont. A sala é espaçosa, tem um sofá branco e duas cadeironas encarnadas meias pirosas mas modernas, chão de pedra branca, há também três quartos tranquilos, e duas casas de banho em funcionamento e dentro de casa. Sim, porque é das poucas casas em que o trono não é num qualquer sítio insólito que involva ir para a rua por breves instantes para o alcançar.

Estive ao telefone uma hora com uma indiana simpática daquelas que dizem os t’s daquela maneira tão particular, para tratar da luz e gás. Também tratei da internet – só será instalada no dia vigésimo. No worries.

Eu e o Vasco voltámos ao hostel para buscar o remanescente das minhas malas, almoçámos lá, e voltámos para casa, desta feita com o Paul, e ficámos imenso tempo a discutir políticas de estado para tudo. Como vamos dividir a comida? E a retrete como funciona? Should we buy a shit spray, para não cheirar tão mal uma vez satisfeitas as necessidades de lodaçal? Quem dorme onde e com quem? Por motivos de justiça e falta-de-paciência-para-argumentar-devido-ao-cansaço-das-malas, optámos sempre ou por concordar uns com os outros por ser mais fácil, ou então por entregar o destino à sorte, com papelitos que decidiam por nós o que fazer.

Os argentinos continuavam desaparecidos (viemos a saber depois que se tinham infiltrado num barbecue free ao pé da UTS), portanto fomos debatendo como íamos organizar tudo isto. Depois, quando eles finalmente chegaram, às seis, cento e oitenta minutos depois da hora marcada, sorteámos os quartos e os pares: o Vasco ficou com o Diego grande, o Joaco ficou com o Diego Barbas, e eu fiquei com o Paul. Decidimos quem ficava em que quarto novamente através de papéis seleccionadores (haverá um vídeo-tour da casa em breve), e arrancámos para o IKEA em Tempe, para comprar 5 camas, 5 colchões, pratos, copos, toalhas, talheres, panelas. Esta excursão, como decerto poderão imaginar, foi inesquecível.

Aqui o IKEA é igualzinho ao de Lisboa. Tudo organizado exactamente da mesma forma, exactamente os mesmos produtos, as mesmas decorações, o mesmo esquema irritante que obriga uma pessoa a percorrer toda a loja para chegar à saída. Mas esse foi o menor dos nossos problemas. O pior foi a tomada de decisões. “Este não, é muito caro”. Te rompen el culo, boludo, there’s no way I am going to pay for that. E isto, claro, quando estávamos a falar de um artigo claramente essencial como um caixote do lixo para a cozinha. Depois foi o filme das camas. Que lençóis comprar? Será que estes cabem. Che, qual es lo más barato, “Excuse me, can you tell me where is the most cheapest one?”. O Paul dizia “Guys let’s just decide, the store will close in twenty seven minutes” – e faltavam mesmo vinte sete, não vinte seis nem vinte e oito.

Uma confusão. Levo não levo. Volto cá depois, se calhar. Não vale a pena. Mas dá tanto jeito… Este é enorme, não precisamos de tanto. Isso é um desperdício. Custa só um dólar a cada, OK, but if you sum all one dollars…

Enfim, acabámos por escolher uma desorganizada mescla de coisas de que certamente precisávamos, outras de que nem tanto, e outras que se calhar poderíamos ter substituído por algo mais útil, e mesmo assim ficou a faltar uma série de coisas importantes que decerto nos obrigarão a regressar.

Deixámos uma parte para entrega (que chegará amanhã, com a maior parte das camas) e o resto trouxemos à pata, a suar, pelo comboio fora com um colchão, um estrado, uma estrutura camal, panelas, pratos. Há que fazer o jantar não é. Além disso queríamos testar se as camas cabiam bem.

Voltámos, arrastámos a única cama que já existia na casa para outro quarto, mais espaçoso, montámos a que trouxemos e o Diego fez uma miserável polenta chamuscada que devorámos na mesma, especialmente eu que fui o primeiro a ser servido e assim não obtive o milho carbonizado que havia no fundo da panela. Pediu desculpas por não ter corrido muito bem, na verdade é a sua especialidade.

Depois, fomos dormir, ainda acampados, com as malas todas espalhadas por todo o lado, muito javardos, muito suados de acartar com tralhas, com cãibras nos pés e nos braços, mas felizes. Temos uma casa.

Tomei uma banhoca, pijaminha, chichi-cama.

Óbvio que a minha primeira noite foi péssima. Tive o infortúnio de aborrecer o papel seleccionador, que ditou assim que eu ficasse a dormir na cama de casal já existente com o Diego Barbas. Tinha o saco cama, mas mesmo assim dormi mal e com frio. Contudo, soube bem acordar e poder ir para a sala que nem um alarve, sem ter de tomar banho primeiro e sem me vestir, soube bem tomar o pequeno almoço e não lavar logo a loiça, numa cozinha que é minha e não tem papéis a dizer que “quem não lavar será expulso”, e numa sala que tem uma luz espantosa e uma vista incrível para a cidade acordada no Inverno de frio e Sol. Mas que bela casa que arranjei aqui.

Tomei banho na minha nova casa de banho, com a minha nova toalha que não cheira a mofo e está de facto seca, andei à vontade pela minha nova casa e depois saí pela minha nova porta. Ainda há muitas coisas a tratar. Fui para a Reject Shop, uma loja estilo loja dos trezentos onde há óptimos negócios, e lá comprei uma batelada de produtos de limpeza e higiene, sobretudo com o intuito de pelo menos assustar as perigosas investidas dos Argentinos para transformar esta casa num pestilento pantanal Sul-americano ou numa selva de suadas meias brancas e calzoncillos putrefactos.

Tive umas aulas e para cá voltei. Lavei a roupa. Lavei a roupa. Nem acredito que finalmente lavei a roupa. Fizemos um jantarinho de arroz, carne de vaca às tirinhas e montes de vegetais, e agora vim para aqui para contar tudo isto, enquanto os pastores foram para o ginásio encher. Pergunto-me se quando regressarem o jantar ainda terá permanecido dentro dos seus estômagos, ou se estará antes espalhado pela alcatifa pristina do ginásio. Mas independentemente disso, sim, o nosso prédio tem um ginásio! Free.

Portanto, como podem ver, ainda estamos muito acampados, mas amanhã com toda a mobília que vai chegar estiver instalada, e com as coisas que vamos comprar no IKEA quando lá voltarmos outra vez (…), vamos estar impecáveis. Só é chato termos de esperar tanto pela internet, mas arranjámos uma solução provisória através do iPad.

Estou muito satisfeito com a minha nobre mansão, e mal posso esperar para arranjar uma internet como deve ser para fazer upload de um vídeo para que a possam ver. É um kit máximo. Mal posso esperar agora para ter tudo tratadinho e poder finalmente começar a explorar tudo como deve ser, tirar milhares de fotografias do jardim que há na baía, da ponte, das ruas e dos cafezinhos. Mal posso esperar também para me iniciar com afinco nas minhas corridinhas e num desporto qualquer mais oficial.

O segundo capítulo desta jornada começou – e tudo indica que vai superar o já excelente primeiro.

Vamos a isso!