As Campas

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Aqui vos mando fotografias das nossas brilhantes campervans da Nova Zelandia.

A viagem esta’ a ser um especta’culo, ja vimos montes de sitios espectaculares e ate fizemos uma fogueira com churrasco na praia!

As nossas condicoes de vida sao muito precarias, vivemos como pobres e sem espaco para nada, mas lentamente nos vamos habituando e ganhando destreza nos movimentos.

A internet tambem e’ complicada e por isso escrevo a pressa, mas quis so deixar aqui estas fotografias para ja. A proxima ponho e escrevo mais!Imagem

As Pessoas

As pessoas são incríveis. Estou na fila da Apple Store em Sydney, na esquina da York com a King, ainda longe da George onde fica a loja, e há pessoas. Há milhares de pessoas. Um burburinho gigante que se sobrepõe aos carros e aos semáforos que aqui apitam. Vejo uma família completa de indianos, vários chineses, já ouvi italiano e chistes em Espanhol. Estão todos em festa, é o iPhone Cinco.

Há grades de segurança a separar a fila dos meros transeuntes, e há milhares de agentes da Apple com tshirts azuis a explicar as novas funções, a oferecer garrafas de água, a fecolher inquéritos e a emprestar chapéus de chuva às pessoas que estão em trechos não cobertos por toldos de lojas, sim porque está a chover – mas ninguém se importa. Os azuis vêm ter connosco, querem saber quem somos, de onde somos, o que comemos e porque estamos na fila. Todos têm histórias extraordinárias de como têm andado a poupar, de como este é o melhor dia do ano e como a Apple é incrível. Eu? Estou aqui a guardar lugar para um chinês demasiado ocupado a trabalhar, e que assim não se pôde juntar à festa.

As pessoas são incríveis. Imensos carros param ao pé da fila a perguntar se estamos mesmo à espera de um telefone. Riem-se em jeito de Coitaditos, apitam e aceleram. Há até um tipo no começo da fila que tem um cartaz daqueles que cobrem todo o corpo, estilo Estados Unidos, desafiando quem desejar a apostar que ele não terá o iPhone Cinco antes de ser anunciado o Seis. Todos olham e riem. Vão conversando, bebericando as águas que, por serem grátis, despoletam insaciáveis sedes e lutas surdas pelas restantes garrafas. Eu consegui uma. Inchem.

Acho que vou estar aqui umas duas horinhas, portanto tenho suficiente tempo para escrever uma última vez antes da Nova Zelândia. Tive só de explicar aqui a uma senhora Azul que não pretendo comprar o iPhone Cinco, que apenas guardo lugar para que alguém o faça. Já recebi um papeleco que me atribui um determinado iPhone. Já é meu, agora há só que esperar.

Entretanto, estou de férias. Tive hoje de manhã o meu último intermédio, o de Finanças, e todos correram razoavelmente como esperado. Intermédio. O que interessa é que estou de férias. Já não me importa o odor nauseabundo a cebola confitada que gramei durante o exame, nem sequer o tempo que tive que dedicar a isto. São águas passadas, agora preocupo-me mais com as que me vão caindo na desnuda careca.

Estou aqui há meia hora e estou a meio do caminho, acabam de me informar. Até está a andar bem. Mal sair daqui vou almoçar. Acho que vou ao Subway. É uma espécie de companhia das Sandes para quem não conhece, aqui é muito popular. Até ao décimo dia do próximo mês está em vigor uma campanha muito agradável em que oferecem uma refeição. Basta registar no club de membros com o endereço electrónico. Escusado será dizer, portanto, que os argentinos já disfrutaram desta promoção quatro vezes, com quatro contas de email diferentes. It’s ameicing man, is free!

Já sabem como reagimos a coisas free neste país. No outro dia estávamos na biblioteca a estudar e o Negro sugeriu que fôssemos beber água ao bebedouro. Eu não tinha sede, por isso recusei. But it is free, respondeu incrédulo.

Agora já cheguei ao vidro da Apple Store. Deve estar quase na minha vez. O Jonathan já vem a caminho.

Amanhã vou para a Nova Zelândia. Tive de arranjar uma tradução da minha carta de condução para poder conduzir. A senhora, mexicana MariPaz, fez-ma por email, e não se importou que eu lá passasse no domingo em casa dela, para lhe deixar o dinheiro. Can I trust you, perguntou. As pessoas são incríveis.

Acho que a Nova Zelândia também vai ser.

Tarefa feita. E assim ganhei sessenta dólares!

Oscar Wylee

Como se antecipava, os últimos dias não têm sido muito divertidos. Estamos completamente inundados com trabalhos e estudos para os intermédios que temos, e parece que não sobra tempo para mais nada. Aliás, no sábado já tive o meu primeiro, o de Transnational Management, que até me correu bem – tendo em conta o pouco que estudei, comparado com o que devia ter estudado.

E porque estudei tão pouco, alguns indagarão. Pois bem, a verdade é que surgiu uma oportunidade de trabalho simplesmente irrecusável, e portanto perdi um dos dias que tinha destinado a estudar a trabalhar ao invés.

O trabalho, além de (muito) bem pago, era divertido e algo de que gosto e com que me divirto. O objectivo era pegar numa série de óculos e andar com eles pela cidade fora, fotografando-os em ambientes interessantes e “cool”. Mais tarde as fotografias seriam utilizadas para redes sociais, Instagram, Facebook e assim.

Oscar Wylee é a marca destes óculos, e é uma nova empresa acabadinha de começar aqui na Austrália. Tem imensos designs engraçados a que recomendo a vossa apreciação caso estejam necessitados de modernas lunetes, e funciona tudo online, com envios grátis e devoluções também, se necessárias. Não estou seguro se funcionam fora da Oceânia, ainda assim. Mas vale a pena perguntar. E já agora podem referir-me nessa pergunta, “Vim cá parar através do blog do Francisco” que assim caio nas boas graças dos gerentes. Obrigado pela ajuda. E já agora façam like no Facebook!

Eles são dois chineses australianos, que vivem cá desde sempre, e são ainda bastante jovens. São daquele género de Chinês moderno, que se encontraria nos Estados Unidos ou nos laboratórios do CSI, não daqueles que há na UTS e que dormem em cima de livros na biblioteca. Acolheram-me com muita simpatia, com bom dinheiro e promessas de trabalhos futuros.

Ironicamente, enquanto eu andava a vaguear por Sydney à procura dos melhores spots, os meus colegas de casa arranjaram também um trabalho na Oscar Wylee, sem saberem que eu lá estava. O mundo realmente é um bidé, alguns diriam. Outros diriam “such coincidence, man, such coincidence”.

Então lá andei pela cidade fora fotografando, com azar porque o tempo estava chuvoso e a luz pobre, mas havia urgência, e havia que entregar as fotografias até ao fim do dia. Quando as entreguei, foram um sucesso, e recebi rasgados elogios. Até me pediram para lhes dar as minhas fotografias do Festival of the Winds, porque eram muito boa onda. Óptimo para mim, soube bem o reconhecimento!

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Quando lá cheguei ao escritório para lhes dar o material, lá estava o Pulpo Paul, o Diego D’Alessio (a.k.a. Negro) e o Joaco, também a trabalhar para eles. Todos em animada conversa, em ambiente quase familiar, mas a laborar ao mesmo tempo. Enquanto esperava que as fotografias fossem transferidas para o computador, juntei-me a eles. Perguntei como se tinham conhecido todos, e como tinham chegado à conclusão de que estávamos a trabalhar para a mesma pessoa. Claro que o Pulpo tinha de dizer à frente dos gerentes que “You mentioned you were working for two chinese, and so I did the math”. É que nós nem sabemos se eles são mesmo chineses – têm só os olhos mais preguiçosos. A sorte é que eles são descontraídos e riram-se. Mas se fossem os da UTS não teriam gostado de certeza! Principalmente as asiáticas damas-falcão que nos previnem de copiar nos testes com o seu fuzilador olhar.

O trabalho, esse, não ficou terminado naquele dia, e portanto hoje tivemos de ir lá dar os retoques finais. Era uma tarefa simples, de automatismos, que às tantas já fazíamos sem pensar, em piloto automático.  Tira a película. Abre a caixa branca. Tira a caixa dos óculos. Atira o invólucro para o lixo. Tira os óculos lá de dentro. Fecha a caixa. Distribui os óculos pelos devidos recipientes. Põe a caixa de óculos dentro da branca. Volta a colocar a película. Repete.

Sempre assim. Lá estivemos todos. Fez-se bem porque íamos conversando no entretanto, em regime de multi-tasking, insultando a lentidão de uns, e desenvolvendo inovadoras técnicas que permitiam tirar a película mais rapidamente, ou então fazendo disso algo divertido, apesar de não o ser definitivamente. Ao todo estivemos lá umas sete ou oito horas, se somarmos os dois dias em que lá fomos. Uns estiveram mais tempo do que outros, mas no fim ainda ganhámos todos uns dinheiros agradáveis. Não sobra assim nenhuma desculpa para não efectuar o Bungee Jumping na Nova Zelândia.

Esse país é onde pretendo chegar dentro de quatro dias. Tenho só dois intermédios pela frente, e mais um trabalho de ir para a fila da Apple Store comprar um iPhone 5 para um ocupado chinoca que não pode perder esse tempo – então paga-mo.

Antecipo histórias inesquecíveis e relatos insólitos de ursos e uruk-hais, e espero com ansiedade o momento em que finalmente vou pisar terras kiwi pela segunda, e infelizmente talvez última, ocasião nesta minha vida.

Pode ser que encontre o Peter Jackson!

E Tudo o Vento Levou

Na sexta feira à noite perdi tudo o que restava do meu cabelo. Estou careca. E desta vez em sentido literalmente calvo. Não foi premeditado. O plano era rapar com o pente de vinte e cinco milímetros, mas por engano ou conspiração o meu argentino barbeiro cometeu um erro – e deixou-me uma clareira enorme mesmo no meio da nuca. A única forma de solucionar o problema foi rapar o restante ao mesmo nível, para que pelo menos fosse homogéneo.

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Não fiquei satisfeito, a princípio. Nada satisfeito. Estava horrível. “O que fiz com a minha vida, com que fiz com a minha nobre vida”. Perdi a cabeça. Perdi literalmente a cabeça. ‘Está increible, boludo, a mi me encanta!’
Imagino, já que foste tu que o cortaste, coirão.

Na noite do desbaste fomos sair e rapei um frio gigantesco. Se calhar devia dizer antes “apanhei”, até porque não estava a achar graça nenhuma à novidade. Mas estranhamente, no dia a seguir, de cabeça fresca, vi o espelho e já não achei assim tão mal. Foi crescendo em mim. Epá até gosto do estilo. O turning point foi quando me começaram a chamar Pepe e Lincoln Burrows. Aí sim, conformei-me totalmente e fiz as pazes com o meu cabelo de que agora gosto e sempre cofio. É óptimo para mexer, é um ouricinho. É um misterioso oricinho.

No Domingo, já com o cabelo mais crescido – e não estou a exagerar, cresceu mesmo – decidi ir cedo até Bondi. Era o Festival of the Winds, evento anual onde se juntam vários criadores de papagaios para mostrarem as suas mais recentes criações. Portanto saí de casa cedo, que começava às dez, pus creme-do-sol na cabeça como quem põe champô – pior do que uma careca é uma escaldada careca – apanhei o comboio, depois o autocarro, e lá cheguei. Estava vento, e ainda bem. O festival ainda não tinha começado, portanto decidi ir espreitar os também famosos Bondi markets, uma espécie de feira da ladra cá do sítio. Tinha imensas barraquinhas com roupas, velas naturais, bugigangas e parafernálias inúteis que dá vontade de comprar e depois perder. Havia imensa gente, imensos vendedores de chinelos e tabaco, típicos australianos daqueles mesmo no worries, todos hippies porreiros. Até ia comprar uma t-shirt, ainda marcado pelos gritos inesquecíveis de Carcavelos, Olha a cinco euros, mas acabei por recuar quando descobri que o artigo mais barato custava vinte e cinco dólares e cheirava a mula velha.

Prossegui para o festival, que agora já estava de pé, com montes de papagaios ao vento. Havia barraquinhas de comidas internacionais, música ao vivo e uma tenda onde uma velhota gordinha se sentava e falava ao microfone. Contava a história dos papagaios, mas ninguém ouvia porque todos estavam mais interessados em ver o espectáculo. Havia milhares, de todos os tamanhos, alguns maiores do que eu, em forma de ursos voadores, tigres alados, baleias flutuantes, caranguejos saltitantes. E o melhor é que eram construídos de maneira a parecer que se mexiam. Com o vento, a baleia mexia a boca, o tigre gatinhava no ar, e o caranguejo abria as pinças. Apesar do vento estava um calorzinho secreto que só se sentia durante pausas momentâneas, e a água estava espectacular e cheia de surfistas. Abanquei e li um livro, só queria estar descansadinho pois à tarde tinha de ir acabar o trabalho de estratégia.

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No regresso para casa tive um encontro com uma chinesa no autocarro, que estava com medo de mim, principalmente quando ameacei abrir a mochila para tirar o meu telefone. Acho mesmo que ela me considerou terrorista ou pior, mas não percebo porque terá ela julgado tal coisa. Não me vem nada à cabeça.

Entretanto, quando cheguei a casa, recebi a nobre notícia de que a máquina de secar se tinha avariado definitivamente, e portanto a partir de agora a roupa teria de ser secada à moda antiga. Escusado será dizer que agora a casa é um medieval estendal de roupas húmidas e já a cheirar a mofo, espalhadas no sofá, na varanda, nas cadeiras. Ah, lar doce lar.
Ainda comprámos um estendaleco de sete dólares, mas evidentemente já foi monopolizado pelos calzonzillos argentinos e não há espaço para mais… Creio que não tarda vamos deixar de lavar a roupa, e aí sim podem chamar os laboratórios todos que quiserem, porque de certeza que vamos desenvolver aqui bactérias nunca antes vistas.

E antes que me esqueça, há outra novidade. Há duas semanas fui a uma entrevista de trabalho para uma posição num café. Alguns de vós gostaram da imagem da minha pessoa com um avental, disseram que seria genial. Pois bem, posso adiantar-vos que não vou trabalhar nesse café (o dono não gostou que eu me ausentasse durante duas semanas durante a viagem à Nova Zelândia), mas consegui outra tarefa, igualmente engraçada. Tenho de me mascarar. De animal. Fofinho. É para um evento qualquer que pretende promover os animais. Vai ser engraçado. Imaginem, um fatinho completo, de pinguim, a entreter convidados…
Além disso, amanhã também tenho um trabalho a tirar umas fotografias dum produto qualquer. Impecável, assim vou ganhando uns trocos, grão a grão enche a galinha o papo, cabelo a cabelo replanta o velho a careca.

Outra novidade que vale a pena mencionar é a entrevista que fiz hoje para Estratégia. Tive que ir até à Foxtel, Meo cá do sítio, entrevistar a directora de Strategic Planning. Foi engraçado, ela era muito simpática, aprendemos imenso, e ainda visitámos os estúdios e tal. Valeu a pena deslocar-me até lá e assim cruzei finalmente a Harbour Bridge até North Sydney.

De resto, os dias têm sido preenchidos com muito estudo e muitos assignments, e com o meu cabelo a crescer rapidamente, por estranho que pareça. O Diego gostou muito da sua obra, e não se cansa de dizer que quando está comigo se sente no Prison Break, quando caminhamos pelas ruas. Especialmente quando estou de óculos escuros, I feel like doing something adventurous man, it’s amazing!

O tempo não tem estado tão bom – o meu filhote está doente – mas até é bom porque tenho estado a trabalhar enfiado dentro de casa e assim não perco tanto.

Conto agora os dias para a Nova Zelândia. Por cá também não vou perder muito nestes dias, agora que tudo o vento levou. A máquina de secar, os papagaios, o meu cabelo.

O meu cabelo.
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Chegou


(ouvir a ler!)

Esta semana o Verão chegou e já não se vai mais embora. Há sol e há calor, há biquinis e chinelos, sal e escaldões. Tudo parece perfeitamente alinhado com o hino ‘eu gosto é do verão’ e portanto canto-o e sinto-o e faço-o. Eu gosto é do Verão, de passear de prancha na mão, saltarmos e rirmos na praia, de nadar e apanhar um escaldão.

Para a maioria de vós que me lêem, isso não interessa ou não é novidade, porque o hemisfério dos países do Norte já o teve e já quase não o tem, mas para mim é da melhores coisas que têm acontecido aqui no Sul. Imagino que seja quase como ter um filho, e assim imaginar tudo o que ele vai ser e em todas as coisas espectaculares em que se pode tormar. É decidir como ele vai crescer, que desportos vai praticar, que música irá escutar e que nome vai receber. É a promessa de algo novo e refrescantemente bom e diferente, e ao mesmo tempo quente, ao mesmo tempo seco como o deserto dormente no fim da tarde.

No domingo, uma vez livre do diabólico trabalho de Finanças que me atormentou a semana anterior, decidi ir para Manly, para a praia onde fui no dia do meu vigésimo aniversário. Passámos lá a tarde, embora não estivesse muito calor, e aproveitámos para explorar umas grutas que havia lá ao pé. A praia tem o inconveniente de estar virada para Este, portanto fica sem luz muito mais cedo do que o resto dos lugares – sobretudo porque é orlada por uma série de árvores gigantes que deixam sombras a partir das três.

Portanto, apesar de nāo estar muito calor, o dia foi um agradável augúrio do tão-antecipado e agora iminente Verāo.

De maneira que vivi a segunda-feira pesada de forma leviana, celebrando secretamente a boa-nova, e ansiando pela folga do dia seguinte. O Diego fazia anos à meia-noite, portanto fomos sair e divertimo-nos com novas histórias e piadas que inevitavelmente nascem nestes ambientes, como os pinhões aparecem no Algarve.

Na terça fomos para Bronte, outra praia onde estivemos no outro dia, e fizemos lá um barbecue de aniversário. Nem todos os nossos amigos puderam vir porque muitos tinham aulas, mas mesmo assim estivemos muito bem. Há um relvado enorme que antecede a praia, a caminho do mar e da areia, por onde se espalham várias barraquinhas de madeira, com mesinhas e bancos para se almoçar. E como se não fosse suficiente, há também um série de chapas metálicas onde cada um pode cozinhar conforme lhe aprazir, sem pagar nem reservar. Num país como este, isso é quase como encontrar uma ostra de pérola escura à beira-mar!

Portanto fizemos um churrasquito de hamburgueres e salsichas, muito à moda Australiana e dos seus ‘barbies’, com a Rocio e a nossa bola de futebol dos pokemon, que sacámos gratuitamente da sala de perdidos e achados de uma das residências. Depois, de pança cheia no sol quente, avançámos até à praia, e lá passámos a tarde, a conversar, a dormitar ao solinho, a ouvir o som do Verão que cada vez mais anuncia o seu regresso.

Infelizmente tive que sair mais cedo para ir a um evento do Clube de Fotografia, onde ofereciam pizzas gratis e uma exposição miserável com os melhores trabalhos da última excursão. Não foi nada de especial – preferia ter ficado em Bronte – mas sempre deu para conhecer outras pessoas, principalmente chineses, e variar de ambientes.

Na quarta feira saí cedo de casa, tomei banho rapido, e fui dar uma volta pela cidade incrível e declaradamente mudada. Lembrei-me de Lisboa em Julho, apesar de ser diferente com mais arranha-ceus, mas igual na luz e nas pessoas claramente felizes, nas mulheres queimadas mais despidas e com sandálias, no cheiro leve da preguiça quente e viva. Fui a uma loja comprar finalmente o tripé para a minha máquina, e depois limitei-me a andar completamente à deriva, nas ruas que agora já me são muito familiares, pois já sei que a King cruza com a York, mas que também dá para ir logo pela Clarence e depois vira-se à direita naquela rua estreita que tem o hotel e a esplanada simpática. Conheço-as já bem melhor do que algumas partes de Lisboa onde ninguém vai, como as avenidas novas ou a diabólica encruzilhada da Praça de Espanha, e fico contente por já ir conhecendo esta cidade e alguns dos seus segredos mais íntimos.

Andei o dia todo de calçòes e ténis-de-verão, daqueles que têm areia lá dentro e já perderam (ou ganharam) a côr por tantas vezes os calçar com os pés molhados e salgados. Andei que me fartei, mesmo à tarde depois de o Sol se pôr e se levantar o vento quente de bife na pedra, vento de fim do dia e petiscos no alpendre, vento de verão e caipirinhas.

Na quinta feira dia de hoje acordámos muito cedo, antes das oito, para irmos até Bondi antes da aula de estratégia. Estava incrível. Montes de pessoas interessantes, loiraças atraentes, surfistas insistentes.

A água estava geladinha como no Algarve, dezassete graus diria o meu engenheiro Avô, mas isso não me impediu de dar dois vigorosos mergulhos grandes. Já o tinha decretado mentalmente – hoje tinha mesmo de ir.

Uma vez mais andei o dia todo de calções, de toalha aos ombros, ainda salgado, com o cabelo despenteado e a ventilar o cheiro típico de tshirt-depois-da-praia, snifando os pulsos com cheiro a côco e creme-do-sol.

Nem acredito que finalmente acabou a chuva e o frio, que finalmente posso ir à praia de calções, e que finalmente o chão da sala está cheio de areia e sal. É a merecida recompensa por quase não ter tido Verão na Lusitânia, e a paga por ter escolhido este destino tão longínquo e inacreditável.

Claro que agora não consigo parar de pensar neste meu novo filho que é o Verão, e vislumbrar todo o seu potencial, todas as viagens e aventuras que lhe esperam, todas as festas, todas as histórias de fogueiras e festas de areal.

Há só que fazer o esforçozinho académico para estas duas semanitas de testes intermédios e tarefas académicas, mas não me importo, porque é Verào e cheira Verão.

“Foi para isto que vim para a Austrália”, concordámos cá em casa.