Um bidé

Hoje estiveram trinta e dois graus em Sydney e o Mundo é um bidé. Um pequenito bidé. É impressionante como é pequeno, sendo estranhamente grande ao mesmo tempo.

Estou na minha varanda a ouvir música, e começo a pensar, há uma série de lugares, de países e de culturas, mas na verdade eles não são assim tão diferentes e distantes. As pessoas – e os aviões, verdade seja dita – têm uma habilidade especial para ficar mais perto, para ser mais perto.

No Domingo tivemos um almoço cá em casa com a mãe da Pauli, uma das nossas amigas argentinas. Veio visitar-nos porque no Sábado foram os anos dela, e como o seu namorado é piloto, conseguiram voar até cá facilmente. Convidámo-los porque achámos que seria simpático, mas principalmente porque precisávamos urgentemente de um pretexto para limpar a nossa casa que tinha acabado de ultrapassar recordes de sujidade e nojo.

Hoje é terça feira e a casa já está como antes, mas pelo menos esteve apresentável durante o almoço, que correu optimamente. Foi engraçado porque a Sandy não falava inglês, o que obviamente não abonava a favor do Paul, mas mesmo assim não impediu nada, porque o Nélio dava uns toques. Eram muito simpáticos, muito jovens e descontraídos, e imediatamente nos trataram como se fôssemos sobrinhos de verdade, Fran, me pasas el queso, hijo mio.

Contaram histórias engraçadas de Buenos Aires e de outras viagens, histórias do Mundo que sempre interessam e fazem rir, sempre num ambiente familiar de que já todos tínhamos saudades. Trouxeram muitos presentes, e contaram como os pais dos restantes argentinos tinham saudades indescritíveis mas orgulhosas. Estavam todos recontentos por estarmos a viver esta experiência, e por vivermos nesta casa e neste grupo “onde se vê que somos todos unidos”. Quase como irmãos. Uma família. No último livro que li, aprendi que as famílias são o que se quiser, e parece que nós assim quisemos. Esta é a nossa família aqui Down Under.

Mas é claro que temos cada um a sua outra família, a do sangue e do território, que por agora não está, mas de que temos saudades. Foi por isso que vimos todos o vídeo que a família do Diego lhe mandou, com muita nostalgia, mas ao mesmo tempo com muita graça e zomba.

O que mais me surpreendeu, mais do que tudo, é que apesar dos lugares e das pessoas, há coisas que são sempre iguais, como as famílias. Como os irmãos e os pais. E os avós e os tios. Acho que deve ser por isso que o Mundo é na verdade um bidé, um alguidar apertado onde vivemos a achar que estamos longe e somos diferentes, quando em boa verdade somos parecidos, somos iguais. Essa é para mim uma das maiores lições desta viagem.

Esta minha teoria foi novamente comprovada ontem, quando recebi uma mensagem de um amigo dos meus pais, dizendo-me que estava cá em Sydney e gostava de ir jantar comigo. Um bidé! Mesmo aqui a vinte mil quilómetros, longe da Lusitânia, encontro um amigo dos meus pais. Impressionante como as pessoas se movimentam e se ligam!

Fui então jantar com o Tio João Alvelos, em Sydney, nesta parte do bidé. Depois de alguns percalços e de restaurantes que fechavam cedíssimo, lá encontrámos um chinês simpático para conversarmos.

Em ambiente animado, e entre garfadas de arroz frito com pauzinhos, falámos sobre a cidade e o país, e concordámos que realmente é uma excelente oportunidade estar aqui e ter esta chance para aprender estas lições noutros lugares e com outras pessoas. Falámos de como era antes e de como as coisas mudam, mas ao mesmo tempo não mudam, porque tal como as famílias, os pais serão sempre pais, e os filhos serão sempre filhos.  Falámos de como eles são importantes para nós, e de como podemos fazer coisas boas com eles e por eles.

Foi um jantar muito agradável de que, como disse o Tio,  falaremos durante largos anos, e lembraremos como “aquele jantar lá no fim do Mundo”.

Todos estes eventos me ajudam a pensar que vivemos mesmo num bidé, porque podemos encontrar-nos em qualquer parte, em qualquer circunstância, pessoas de todas as origens, e ainda assim ligar e encontrar pequenos detalhes que são iguais, e que por isso não são assim tão pequenos – são talvez os maiores.

Gosto de estar nesta parte do bidé por enquanto, e acho que estou a fazê-lo da melhor forma possível. Claro que tenho saudades da família e dos amigos, mas ajuda saber que têm tanto orgulho nesta jornada, e ajuda ainda mais saber que estão lá, e que me dão a oportunidade de fazer isto e viver isto.

Às vezes não sei bem como agradecer, mas na verdade até é simples.

É aproveitar.

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Uma Roadtrip e Uma Surpresa

Nos últimos dezoito dias percorri toda a ilha do Sul da Nova Zelândia numa autocaravana. Foi uma viagem que nunca esquecerei, diferente de todas as outras – na forma e no conteúdo – e embora tenha tido alguns precalços, guardarei para sempre os melhores momentos.

Devido à minha ausência aqui neste blog, há muito que ficou por contar. Raramente dei notícias, em boa verdade. Portanto, agora vos conto a maioria das coisas que ficaram por dizer. Organizarei o post por seccões, pois assim é mais fácil para vós a leitura e para mim o processo de recuperação de memórias.

Secção 1 – As Autocaravanas

Éramos sete nesta viagem: eu, Vasco, Paul, Diego, Negro, Joaco e Lucho. Supostamente íamos ser oito por motivos de economias de escala, mas tivemos uma desistência de última hora. Isto porque em cada van há lugar para dormirem quatro, e assim reduziríamos os custos. Enfim, como não foi possível, viajávamos em 4-3.

As vans são flexíveis: durante o dia são carros ordinários, mas à noite transformam-se em sofisticados laboratórios onde se testam os mais inovadores perfumes. Os bancos traseiros são móveis e esticam como um sofá cama, criando uma alegada cama no piso inferior. No piso superior, a ‘cama’ está sempre montada, mas serve de bagageira durante o dia. Na minha van, em cada um destes dosséis dormiam dois gigantescos orangotangos, pois o destino assim o ditou após o antecipado regresso dos papéis-de-fortuna. Foi assim que calhei no piso superior com o Diego, e o Negro no piso inferior com o Lucho.

Todas as noites, passávamos as malas para os dois lugares da frente, onde ninguém dorme, colocávamos as míseras cortinas que pendiam das portas na horizontal, e montávamos o complicado sistema de lençóis e sacos cama. Com quatro pessoas, como podem imaginar, num espaço microscópico, entre turras (a minha cama estava a uns vinte centímetros do tecto), desabafos de la puta madre, e sobretudo odores requintados de queijos e iguarias de outros lugares, lá dormíamos todos torcidos e com cabeçadas constantes cada vez que tentávamos mover-nos.

Mas há mais. As vans são autosuficientes, porque têm frigorífico, fogão, lavatório e uma alegada retrete portátil que ninguêm usou por ser nojenta – muito embora não tanto como a tarefa associada de a limpar após uso. Na parte traseira há botões para ligar estes aparelhos, conectados a uma bateria diferente da que inicia o carro. O frigorífico é estilo mini bar dos hoteis por fora, mas por dentro é uma pintura abstracta de leite e coca cola que vai chocalhando à medida que o carro saltita em andamento, ressaltada por ovos esmagados aquando de travessias turbulentas por lombas e passeios. O fogão é igual a todos os outros, embora evidentemente mais pequeno e praticamente colado ao lavatório, o que dificulta as movimentaçòes dentro desta cozinha de zero vírgula quatro metros quadrados. O lavatório tem uma torneira operada através de uma bomba de água que se tem de ligar nos tais botòes. Há que constantemente carregar o tanque de setenta e cinco litros de água limpa e esvaziar o outro, da água suja. Óbvio que na minha van esta torneira tinha um furo que alagava o armário imediatamente abaixo do lavatório sempre que se ligava a água. Era a nossa gotera. Este fenómeno contribuiu logicamente com uma dose avultada de odor a podre e a bafio, que assim se aliava a outras fragrâncias já existentes de loiças sujas, sapatos com ‘olor a pata‘ e remanescentes de comida carbonizada que ninguém limpava. É que limpar o que quer que seja é um processo que dá mucha paja, porque o lavatório é mínimo, o esfregão asqueroso, e complicado o processo de ir ligando e desligando a bomba da água, sempre todos curvados, para não bater com a cabeça no tecto de meio pé direito.

Há toda uma panóplia de roupas espalhadas por todo o lado, toalhas húmidas, meias putrefactas. Os lençóis cheiram a morto em deterioração avançada, e o chão da van é um pântano amazónico de lamas e ervas daninhas que todos importam do exterior.

Secção 2 – Higiene

Esta secção é muito curta porque os hábitos de higiene também o foram.

Na Nova Zelândia:
Tomei banho no mar uma vez.
Desempenhei certas necessidades em todo o tipo de casas de banho públicas.
Lavei os dentes diariamente na van.
Utilizei apenas duas calças.
Em dezoito dias, tomei duche duas vezes.

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Secção 3 – Alimentação e comodidades

Por sermos muitos e comermos alarvemente, as nossas refeições foram sempre complicadas. Normalmente almoçávamos sandwiches miseráveis e baratas, e ao jantar comíamos refeições que não exigissem grandes preparações, dados os nossos pequenos fogões e ainda menores panelas.

Os fideos eram mais do que comuns porque bastava cozer a massa e aquecer o molho, mas em algumas ocasiões galardoámo-nos com extravagâncias de chili con carne e bifes.

Normalmente quem cozinhava ganhava o privilégio de não limpar. Os restantes faziam sorteios mirabolantes que se estendiam pela noite fora e envolviam grande alvoroço. O Paul, escusado será dizer, perdia sempre, na sua ingenuidade rigorosa de Alemão. Lavar era do pior, porque muitas vezes já não tínhamos água no depósito, além disso não havia espaço e o esfregão era absolutamente desprezível. Daí haver tanta discussão.

Além deste handicap, as vans tinham um outro, talvez pior ainda. É que não tinham fichas eléctricas, ao contrário do que antecipáramos. Ou melhor, tinham, mas não funcionavam. A única maneira de funcionarem era se as ligássemos a postos de electricidade, semelhantes àqueles onde se carregam carros eléctricos, apenas disponíveis em campings onde se pagava dezoito dólares por cabeça. Indisponíveis, portanto. Como tal, nesta era de iPhones, câmaras digitais e aparelhos electrónicos, ninguém nunca tinha bateria em nada, e por isso nunca escrevi aqui.

A solução foi mendigar pelos vários McDonald’s que povoam a Nova Zelândia em busca de electricidade e de free wifi. O Lucho ficou prontamente conhecido pelo ladrão de energia, pois era experiente e trouxe consigo uma extensão universal capaz de carregar cinco aparelhos ao mesmo tempo. Os dois eram inseparáveis. Portanto ligávamos lá tudo, mais a extensão do Paul e o o seu computador (também a carregar iPods via USB) numa emaranhada confusão de cabos e até 12 aparelhos – em pleno McDonalds! Todos os kiwis nos olhavam jocosos e riam connosco da nossa própria precariedade.

E como quase sempre os McDonalds aqui permitem buffet de bebidas, comprávamos uma só e bebíamos todos dali, em dezenas de refills que fazíamos à vez. Eram assim uma referência importante que condicionava a nossa escolha de onde dormir e para onde seguir.

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Secção 4 – A Viagem e os seus Melhores Momentos

As viagens faziam-se quase sempre com música, cada um com os seus gostos que íamos aprendendo a respeitar. Jack Johnson era muito frequente por imposição Argentina, mas contrabalançado por The Killers e Shout Out Louds.

Era frequente irem caindo malas da bagageira, saltarem pratos sujos do lavatório para o meio do chão, ruídos de metais e garfos a estatelarem-se, e até líquidos nojentos de origens ignotas a esparramarem-se no chão com a carrinha a saltitar. Foi uma realidade que fomos forçados a encarar, e às tantas já nem olhávamos para trás a ver o que tinha caído – fosse o que fosse, era normal.

Cada dia guiávamos uns duzentos quilómetros, em média, baseando-nos em guias de viagem, no feedback de amigos que já fizeram parecido, e sobretudo através dos sábios conselhos que colhíamos nos vários i-Sites: centros de informação altamente competentes e gratuitos, espalhados por toda a Nova Zelândia. Lá pedíamos conselhos acerca do que ver, do que fazer e onde dormir. Foi assim que encontrámos alguns dos locais onde acampámos legalmente – porque quase sempre o fazíamos contra a lei – e foi também lá que encontrámos duches de um dólar e uma fábrica de chocolate onde nos davam amostras gratuitas.

A viagem era sobretudo de ver, de visitar, e não tanto de fazer ou descansar. Fizemos, ainda assim, várias caminhadas pelo meio da Natureza, pelas praias, pelas florestas. A Nova Zelândia é um país muito calmo, quase não há noite, mas é espectacular por isso mesmo e pelas paisagens incríveis com que nos deparamos em todas as estradas.

Se tivesse de apontar os meus sítios preferidos, escolheria Akaroa, espectacular junto ao lago, o Milford Sound na sua calma impressionante, a estrada que corre junto ao Lago Wanaka em direcção a Haast com vistas incríveis de lagos em espelho, o passeio no glaciar de Franz Josef e o parque Nacional Abel Tasman nas suas praias de ‘areia dourada’ e no hiking de catorze quilómetros.
Mas a verdade é que, como diz o Paul, é difícil eleger locais específicos, porque na realidade o que se apreende é uma ideia geral do país, impressionante em praticamente todas as estradas e todos os lugares.

Não gostaria de viver aqui, porque é de certa forma demasiado calmo, mas não me importaria de ter uma casa de férias, num dos milhares de sítios isolados que vimos, em lugares secretos com vistas privadas para o Pacífico neste canto do Mundo.

Relembro com saudade o fogo que montámos na praia de Timaru e sobre o qual cozinhámos o nosso jantar em paus que fabricámos, o jantar no meio do jardim em Dunedin, os leões marinhos a um metro de distância em Allans Beach, a praia secreta de Porpoise Bay e o nosso acampamento espectacular em Monkey Island. Recordo o cruzeiro pelo Milford Sound e a caminhada pelo Abel Tasman, e revejo o mar azul claro em Kaikoura fria e animada.

Lembro também os episódios de sorteios por tudo e por nada, em que quase sorteávamos se se decidia com sorteio, da falta de gasolina no meio do nada ao cair da noite em Milford, e do velho bebâdo que queria andar à pancada connosco em Queenstown porque estava aborrecido. Revejo o momento em que fomos mandados parar pela polícia porque estávamos a guiar demasiado devagar e também quando nos esquecemos do Paul em Fox Glacier. Relembro ainda algumas conversas mais filosóficas que tivemos quando nada mais havia que fazer, mas que nem por isso eram menos produtivas e interessantes.

Sabe-me bem voltar agora a casa, voltar a ter duche e comida decente, mas sei que nunca esquecerei esta viagem por este país de que tanto gosto.
Foi diferente, e por vezes esgotante pela falta de condições, mas não me arrependo.

Nem por um segundo. É uma experiência que faz crescer e dar valor a pequenos confortos que se tem numa viagem normal – mas que por defeito não apreciamos até sentirmos a sua falta. Apesar disso, acredito que esta é a melhor forma de descobrir este país, e agora sim posso dizer que o conheço bem!

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Secção 5 – Uma Surpresa

Enfim, por terem lido tudo isto e por me continuarem a apoiar nestas escritas, aqui vos recompenso com uma surpresa que estou ansioso para contar desde o dia quarto do décimo mês….

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A Nova Zelândia

Caros seguidores,

Peço desculpas pela minha ausência, mas tem sido muito difícil ter internet e bateria nos aparelhos em simultâneo. A viagem está a ser um espectáculo, mas não quero desperdiçar este post rápido a descrevê-la. Fá-lo-ei mais tarde, quando regressar à Austrália minha (quase) pátria.

Espero que esteja tudo bem com todos.

Para já deixo algumas fotografias dos melhores sítios até agora.

Beijinhos e abraços!

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