O Fim das Coisas

Há cinco dias que cheguei a Lisboa minha casa, mas só agora consegui encontrar a coragem para escrever este artigo, o último artigo. O ponto final desta jornada Down Under.

Não sabia por onde começar nem que música escutar, porque é difícil, há tantas coisas, tantas ideias, mas tão poucas. Por onde começar, mas por onde acabar também. Achei pertinente a ideia de ir ao verdadeiro início deste blog, ao dia dezanove do sétimo mês, ao dia em que, como alguns dizem de forma pirosa mas talvez verdadeira, começou o resto da minha vida.

Lembro-me desse dia como se fosse hoje. O impacto com a cidade, os magotes de chineses, a incerteza quanto às amizades e às habitações, o hostel. O tenebroso hostel onde a minha toalha cheirava a mofinho, onde o colchão não era mais do que um fino filete de algodão que me danificava as costas e o humor, e onde acima de tudo o clima era de dúvida e secreta tristeza por inevitavelmente se achar sempre que não vai melhorar.

Lembro-me de como soube bem estar enganado e de como conheci as primeiras pessoas, como ficámos amigos por termos tanto em comum, por sabermos que assim havia de correr bem simplesmente porque não havia forma de isso não acontecer. Às vezes penso naquela tarde longínqua em que conheci os célebres argentinos, em que ficou escrito o destino das casas e das famílias, e penso também como teriam sido as coisas caso eles lá não tivessem estado. Poderia entrar numa cadeia complexa de ses e talvezes, se é que isso se pode dizer, em que tudo era diferente se tivesse conhecido antes outras pessoas, ou talvez acabasse por ser quase igual, porque assim estava destinado, assim teria que acontecer.

A verdade, de uma forma crua, é que isso não interessa, porque já aconteceu e não há forma de voltar atrás.

E ainda bem. Conhecer os argentinos foi o impulso necessário para sair daquela hesitação, para perceber que o cheiro da toalha e a grossura do colchão não eram razões para sofrimento e auto-comiseração, eram antes razões para me rir com os outros, para celebrarmos juntos a nossa própria miséria e precariedade, e para brindarmos ao facto (muito mais importante do que colchões e toalhas) de ainda termos cinco meses pela frente naquela cidade.

Lembro-me também da adição inexplicada do Paul e da consolidação da equipa que mais tarde chamámos de “Australian Homeless”. Recordo como passávamos os dias em busca de casas e as noites em busca de promoções para o vinho. Recordo como se passaram mais de duas semanas, entre fases de desespero, outras de maior risota, porque se a casa desse dia fosse um pardieiro, pelo menos já tínhamos alguma coisa de que nos rir.

E depois penso na surpresa que foi termos sido aceites em Bunn Street, o início do segundo capítulo, o começo de novas aventuras e amizades. Assola-me uma confusão de  pensamentos deste início, o desenvolvimento de políticas de higiene e logística, os primeiros cozinhados “em família”, o prazer de lavar a roupa e desfazer a mala, e de me sentir em casa.

Seguiu-se o começo da universidade e a guerra contra um novo desconhecido, uma nova forma de dúvida que agora já era mais suportável, porque sabíamos que pelo menos tínhamos animação garantida lá em casa. Era o descobrir as novas cadeiras, perceber como funcionava a faculdade e os professores, e começar a conhecer os restantes alunos, participar nas primeiras festas de boas-vindas e excursões pela ainda ignota cidade.

A partir deste ponto é mais difícil para mim identificar fases, porque é impossível dissociar alguns eventos, e também difícil situar outros. A partir deste ponto houve uma expansão descontrolada das coisas, cada dia conhecíamos novas pessoas, novas partes da cidade ou da faculdade, as cerimónias caíam e começávamos agora a conhecer-nos de verdade, passámos de um grupo de pessoas que se conheciam a um grupo de amigos que cada vez se iam mais conhecendo.

Íamos à praia, íamos sair, íamos descobrindo como a cidade se ligava facilmente e como o Google Maps já não era preciso, íamos descobrindo os primeiros empregos e novas amizades. Íamos também infelizmente sentindo como já ali o tempo nos escorregava, como nos escapava entre os dedos, como desaparecia inexplicavelmente como os croquetes de aperitivo.

Quando dei por mim estava na Nova Zelândia, numa viagem inesquecível pelo frio e pelas montanhas, uma jornada em moldes insólitos que nenhum de nós pretende repetir mas tão pouco poderá esquecer. Foi o tempo de muita miséria e discussão, mas também o tempo de grandes memórias – como o salto de pára-quedas, as aventuras ao cair da noite, as risadas pelos cheiros e putrefacções, e também as conversas mais filosóficas que fazem pensar e decidir.

E se antes já tínhamos a sensação de que tudo estava a perder o controlo, quando voltámos da Nova Zelândia ainda mais. A partir daí foi uma correria, e foi também uma das melhores partes. Andava sempre de um lado para o outro, fui a Melbourne com os espanhóis e tornei-me grande amigo deles, distribuí flyers, montei camas, tirei fotografias, fiz filas, recuperei amizades que, sem querer, tinha deixado em torpor, saí, gastei dinheiro, deixei de me preocupar tanto com o dinheiro, aproveitei. Percebi uma vez mais como o tempo é a maior riqueza que alguém pode ter, e senti como ma tiravam, como ma roubavam descaradamente sem que ninguém fizesse nada para o impedir. E depois percebi como era impossível impedi-lo, aceitei-o, e preparei-me para ser roubado. Se me vão roubar o meu tempo, então que mo roubem quando ele está mais gasto e escrito, pois assim sei que ficarão as memórias – e essas ninguém mas poderá roubar nunca.

A viagem final pela costa Este da Austrália foi um protótipo desta nova corrente de pensamento, foi um aproveitar total do tempo para fazer aquilo de que realmente gosto,  para estar com quem gosto e também conhecer outros de quem passei a gostar. Foram duas semanas de pura diversão e boas memórias, duas semanas de viagem e de amigos, que são das melhores coisas em que se pode gastar o tempo.

Soube-me bem estar de volta a Portugal, reencontrar a família e os amigos, de quem já tinha saudades. Mas não soube bem voltar e ver branco no preto, tentar compreender como nada mudou se eu mudei tanto.

Vou ter saudades destes tempos, destas pessoas destes meses, e preocupa-me o facto de para muitos deles, se calhar, restar para sempre apenas a sua memória, porque o tempo e as distâncias são traiçoeiros, e separam as pessoas. Vou ter saudades daquela cidade tão espectacular, em que tudo é limpo e tudo funciona bem, onde as pessoas estão bem com a vida e bem a vivem. E vou ter também saudades da nossa casa, das festas, das praias, dos amigos, da liberdade de não saber e antecipar.

Oiço agora o concerto dos Coldplay que fui ver ao estádio, umas das muitas boas memórias que trouxe. Mas não foi do nada, foi de propósito, porque assim me lembrei do fim, assim me lembrei de como o vocalista o cantou sem saber.

I see trees of green,
And clouds of white,
The Sydney Opera House
When it’s lit up at night

I see Australia and I
Can’t help but wonder
I think everyone in the world
Would love to live here Down Under

And I think to myself

What a wonderful world.