O Fim das Coisas

Há cinco dias que cheguei a Lisboa minha casa, mas só agora consegui encontrar a coragem para escrever este artigo, o último artigo. O ponto final desta jornada Down Under.

Não sabia por onde começar nem que música escutar, porque é difícil, há tantas coisas, tantas ideias, mas tão poucas. Por onde começar, mas por onde acabar também. Achei pertinente a ideia de ir ao verdadeiro início deste blog, ao dia dezanove do sétimo mês, ao dia em que, como alguns dizem de forma pirosa mas talvez verdadeira, começou o resto da minha vida.

Lembro-me desse dia como se fosse hoje. O impacto com a cidade, os magotes de chineses, a incerteza quanto às amizades e às habitações, o hostel. O tenebroso hostel onde a minha toalha cheirava a mofinho, onde o colchão não era mais do que um fino filete de algodão que me danificava as costas e o humor, e onde acima de tudo o clima era de dúvida e secreta tristeza por inevitavelmente se achar sempre que não vai melhorar.

Lembro-me de como soube bem estar enganado e de como conheci as primeiras pessoas, como ficámos amigos por termos tanto em comum, por sabermos que assim havia de correr bem simplesmente porque não havia forma de isso não acontecer. Às vezes penso naquela tarde longínqua em que conheci os célebres argentinos, em que ficou escrito o destino das casas e das famílias, e penso também como teriam sido as coisas caso eles lá não tivessem estado. Poderia entrar numa cadeia complexa de ses e talvezes, se é que isso se pode dizer, em que tudo era diferente se tivesse conhecido antes outras pessoas, ou talvez acabasse por ser quase igual, porque assim estava destinado, assim teria que acontecer.

A verdade, de uma forma crua, é que isso não interessa, porque já aconteceu e não há forma de voltar atrás.

E ainda bem. Conhecer os argentinos foi o impulso necessário para sair daquela hesitação, para perceber que o cheiro da toalha e a grossura do colchão não eram razões para sofrimento e auto-comiseração, eram antes razões para me rir com os outros, para celebrarmos juntos a nossa própria miséria e precariedade, e para brindarmos ao facto (muito mais importante do que colchões e toalhas) de ainda termos cinco meses pela frente naquela cidade.

Lembro-me também da adição inexplicada do Paul e da consolidação da equipa que mais tarde chamámos de “Australian Homeless”. Recordo como passávamos os dias em busca de casas e as noites em busca de promoções para o vinho. Recordo como se passaram mais de duas semanas, entre fases de desespero, outras de maior risota, porque se a casa desse dia fosse um pardieiro, pelo menos já tínhamos alguma coisa de que nos rir.

E depois penso na surpresa que foi termos sido aceites em Bunn Street, o início do segundo capítulo, o começo de novas aventuras e amizades. Assola-me uma confusão de  pensamentos deste início, o desenvolvimento de políticas de higiene e logística, os primeiros cozinhados “em família”, o prazer de lavar a roupa e desfazer a mala, e de me sentir em casa.

Seguiu-se o começo da universidade e a guerra contra um novo desconhecido, uma nova forma de dúvida que agora já era mais suportável, porque sabíamos que pelo menos tínhamos animação garantida lá em casa. Era o descobrir as novas cadeiras, perceber como funcionava a faculdade e os professores, e começar a conhecer os restantes alunos, participar nas primeiras festas de boas-vindas e excursões pela ainda ignota cidade.

A partir deste ponto é mais difícil para mim identificar fases, porque é impossível dissociar alguns eventos, e também difícil situar outros. A partir deste ponto houve uma expansão descontrolada das coisas, cada dia conhecíamos novas pessoas, novas partes da cidade ou da faculdade, as cerimónias caíam e começávamos agora a conhecer-nos de verdade, passámos de um grupo de pessoas que se conheciam a um grupo de amigos que cada vez se iam mais conhecendo.

Íamos à praia, íamos sair, íamos descobrindo como a cidade se ligava facilmente e como o Google Maps já não era preciso, íamos descobrindo os primeiros empregos e novas amizades. Íamos também infelizmente sentindo como já ali o tempo nos escorregava, como nos escapava entre os dedos, como desaparecia inexplicavelmente como os croquetes de aperitivo.

Quando dei por mim estava na Nova Zelândia, numa viagem inesquecível pelo frio e pelas montanhas, uma jornada em moldes insólitos que nenhum de nós pretende repetir mas tão pouco poderá esquecer. Foi o tempo de muita miséria e discussão, mas também o tempo de grandes memórias – como o salto de pára-quedas, as aventuras ao cair da noite, as risadas pelos cheiros e putrefacções, e também as conversas mais filosóficas que fazem pensar e decidir.

E se antes já tínhamos a sensação de que tudo estava a perder o controlo, quando voltámos da Nova Zelândia ainda mais. A partir daí foi uma correria, e foi também uma das melhores partes. Andava sempre de um lado para o outro, fui a Melbourne com os espanhóis e tornei-me grande amigo deles, distribuí flyers, montei camas, tirei fotografias, fiz filas, recuperei amizades que, sem querer, tinha deixado em torpor, saí, gastei dinheiro, deixei de me preocupar tanto com o dinheiro, aproveitei. Percebi uma vez mais como o tempo é a maior riqueza que alguém pode ter, e senti como ma tiravam, como ma roubavam descaradamente sem que ninguém fizesse nada para o impedir. E depois percebi como era impossível impedi-lo, aceitei-o, e preparei-me para ser roubado. Se me vão roubar o meu tempo, então que mo roubem quando ele está mais gasto e escrito, pois assim sei que ficarão as memórias – e essas ninguém mas poderá roubar nunca.

A viagem final pela costa Este da Austrália foi um protótipo desta nova corrente de pensamento, foi um aproveitar total do tempo para fazer aquilo de que realmente gosto,  para estar com quem gosto e também conhecer outros de quem passei a gostar. Foram duas semanas de pura diversão e boas memórias, duas semanas de viagem e de amigos, que são das melhores coisas em que se pode gastar o tempo.

Soube-me bem estar de volta a Portugal, reencontrar a família e os amigos, de quem já tinha saudades. Mas não soube bem voltar e ver branco no preto, tentar compreender como nada mudou se eu mudei tanto.

Vou ter saudades destes tempos, destas pessoas destes meses, e preocupa-me o facto de para muitos deles, se calhar, restar para sempre apenas a sua memória, porque o tempo e as distâncias são traiçoeiros, e separam as pessoas. Vou ter saudades daquela cidade tão espectacular, em que tudo é limpo e tudo funciona bem, onde as pessoas estão bem com a vida e bem a vivem. E vou ter também saudades da nossa casa, das festas, das praias, dos amigos, da liberdade de não saber e antecipar.

Oiço agora o concerto dos Coldplay que fui ver ao estádio, umas das muitas boas memórias que trouxe. Mas não foi do nada, foi de propósito, porque assim me lembrei do fim, assim me lembrei de como o vocalista o cantou sem saber.

I see trees of green,
And clouds of white,
The Sydney Opera House
When it’s lit up at night

I see Australia and I
Can’t help but wonder
I think everyone in the world
Would love to live here Down Under

And I think to myself

What a wonderful world.

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O Meu Cabelo é um Cronómetro

Nos últimos dias tenho-me apercebido de como o tempo tem passado rapidamente. Nem acredito que já aqui estou há quase quatro meses, quase oitenta porcento do tempo que gastarei neste país. A única coisa que me faz acreditar nessa realidade é o meu cabelo.

É verdade. O meu cabelo é um cronómetro. Todos sabemos que o meu couro cabeludo não tem uma taxa de crescimento muito elevada, mas ainda assim tem crescido a passos largos. Isso não me deixa outra alternativa se não acreditar que já não me resta muito.

Foi por isso que no fim de semana passado decidi ir para Melbourne, para conhecer essa cidade de que já tanto tinha ouvido falar. Desta feita fui com um grupo diferente, com os espanhóis, e passei lá um bom bocado.

Melbourne é uma cidade completamente diferente de Sydney. Há muito menos chineses e muito menos arranha-céus, e portanto a cidade é mais ampla e baixa. Quase toda a gente é meia alternativa, seja pelo cabelo, pelos óculos ou pelos sapatos. É a cidade natal dos hipsters e por isso compreendo porque a minha santa irmã se sente tão em casa. Há milhares de cafés e bares por todo o lado, todos alternativos e cool, e toda a gente se junta lá durante a tarde, para cafés, cervejas e conversas. É uma cidade mais relaxada do que Sydney, não se nota tanto a correria administrativa, e como há mais luz por falta de arranha-céus, o ambiente é diferente, mais descontraído.

Nestes dias ficámos em St Kilda, um bairro ligeiramente longe do centro, mas perto da praia e da animação. Foi bom, porque um dos espanhóis do nosso grupo tinha uma amiga lá a viver, que nos ajudou imenso a explorar a cidade.

Vimos a Federation Square, os Jardins Botânicos, os Queen Victoria Markets e o CBD, fizemos a caminhada junto à praia em St Kilda e no último dia ainda fomos dar uma vista de olhos pela praia de Brighton, famosa pelas suas casinhas às cores. À noite subimos a Eureka Tower e conseguimos ver toda a cidade a 300 metros de altitude.

Fizemo-lo sempre em ambiente animado, embora ao princípio eu só conhecesse um dos espanhóis, e depressa nos tornámos amigos – abandonando assim o inglês para passarmos ao portunhol. Soube bem conhecer pessoas novas e viajar com um grupo diferente, desta feita.

Passámos bons tempos durante toda a viagem, e especialmente no jantar em casa da Mónica, amiga do Pablo de que vos falei, onde comemos e bebemos com leveza e estivemos à conversa. Constatei uma vez mais que o Mundo é um bidé porque também os espanhóis são iguais aos portugueses, já que as piadas e os interesses serão para sempre universais entre nós jovens. Gostei de ouvir as suas histórias e ideias com as quais me identifiquei, e reforcei o meu desejo de aprender kite surf quando regressar à pátria.

Foi uma viagem que me soube bem, principalmente os últimos dias em que o tempo estava melhor, e serviu talvez para iniciar o terceiro capítulo desta jornada com a adição deste grupo.

Entretanto, uma vez regressado, tenho continuado a desempenhar tarefas para ganhar uns trocos, o que me tem ajudado a financiar estas excursões. O trabalho de me mascarar de pinguim nunca foi para a frente, mas o invés tenho feito tarefas de distribuir flyers e converter DVDs para o iTunes.

Hoje é já o segundo dia do décimo primeiro mês, e se não fosse o meu cabelo não acreditaria. Parece que no meio destas viagens, tarefas, trabalhos de grupo, saídas e cozinhados, o tempo passa mais depressa, tão depressa que até parece que nem passa, não tivesse eu um espelho e uma careca a rejuvenescer.

Normalmente isso significa que o tempo está a ser bem gasto – comprovei-o quando fiz o skydive – e acho que aqui se passa o mesmo. Se ao menos pudesse fazer com que ele passasse mais devagar, se ao menos ele se esticasse como o queijo numa fatia de pizza.

Tenciono aproveitar este terceiro capítulo à grande e nada me poderá impedir. Nem mesmo o meu cabelo.

Se fôr preciso, rapo-o outra vez.

A Nova Zelândia

Caros seguidores,

Peço desculpas pela minha ausência, mas tem sido muito difícil ter internet e bateria nos aparelhos em simultâneo. A viagem está a ser um espectáculo, mas não quero desperdiçar este post rápido a descrevê-la. Fá-lo-ei mais tarde, quando regressar à Austrália minha (quase) pátria.

Espero que esteja tudo bem com todos.

Para já deixo algumas fotografias dos melhores sítios até agora.

Beijinhos e abraços!

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As Campas

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Aqui vos mando fotografias das nossas brilhantes campervans da Nova Zelandia.

A viagem esta’ a ser um especta’culo, ja vimos montes de sitios espectaculares e ate fizemos uma fogueira com churrasco na praia!

As nossas condicoes de vida sao muito precarias, vivemos como pobres e sem espaco para nada, mas lentamente nos vamos habituando e ganhando destreza nos movimentos.

A internet tambem e’ complicada e por isso escrevo a pressa, mas quis so deixar aqui estas fotografias para ja. A proxima ponho e escrevo mais!Imagem

As Pessoas

As pessoas são incríveis. Estou na fila da Apple Store em Sydney, na esquina da York com a King, ainda longe da George onde fica a loja, e há pessoas. Há milhares de pessoas. Um burburinho gigante que se sobrepõe aos carros e aos semáforos que aqui apitam. Vejo uma família completa de indianos, vários chineses, já ouvi italiano e chistes em Espanhol. Estão todos em festa, é o iPhone Cinco.

Há grades de segurança a separar a fila dos meros transeuntes, e há milhares de agentes da Apple com tshirts azuis a explicar as novas funções, a oferecer garrafas de água, a fecolher inquéritos e a emprestar chapéus de chuva às pessoas que estão em trechos não cobertos por toldos de lojas, sim porque está a chover – mas ninguém se importa. Os azuis vêm ter connosco, querem saber quem somos, de onde somos, o que comemos e porque estamos na fila. Todos têm histórias extraordinárias de como têm andado a poupar, de como este é o melhor dia do ano e como a Apple é incrível. Eu? Estou aqui a guardar lugar para um chinês demasiado ocupado a trabalhar, e que assim não se pôde juntar à festa.

As pessoas são incríveis. Imensos carros param ao pé da fila a perguntar se estamos mesmo à espera de um telefone. Riem-se em jeito de Coitaditos, apitam e aceleram. Há até um tipo no começo da fila que tem um cartaz daqueles que cobrem todo o corpo, estilo Estados Unidos, desafiando quem desejar a apostar que ele não terá o iPhone Cinco antes de ser anunciado o Seis. Todos olham e riem. Vão conversando, bebericando as águas que, por serem grátis, despoletam insaciáveis sedes e lutas surdas pelas restantes garrafas. Eu consegui uma. Inchem.

Acho que vou estar aqui umas duas horinhas, portanto tenho suficiente tempo para escrever uma última vez antes da Nova Zelândia. Tive só de explicar aqui a uma senhora Azul que não pretendo comprar o iPhone Cinco, que apenas guardo lugar para que alguém o faça. Já recebi um papeleco que me atribui um determinado iPhone. Já é meu, agora há só que esperar.

Entretanto, estou de férias. Tive hoje de manhã o meu último intermédio, o de Finanças, e todos correram razoavelmente como esperado. Intermédio. O que interessa é que estou de férias. Já não me importa o odor nauseabundo a cebola confitada que gramei durante o exame, nem sequer o tempo que tive que dedicar a isto. São águas passadas, agora preocupo-me mais com as que me vão caindo na desnuda careca.

Estou aqui há meia hora e estou a meio do caminho, acabam de me informar. Até está a andar bem. Mal sair daqui vou almoçar. Acho que vou ao Subway. É uma espécie de companhia das Sandes para quem não conhece, aqui é muito popular. Até ao décimo dia do próximo mês está em vigor uma campanha muito agradável em que oferecem uma refeição. Basta registar no club de membros com o endereço electrónico. Escusado será dizer, portanto, que os argentinos já disfrutaram desta promoção quatro vezes, com quatro contas de email diferentes. It’s ameicing man, is free!

Já sabem como reagimos a coisas free neste país. No outro dia estávamos na biblioteca a estudar e o Negro sugeriu que fôssemos beber água ao bebedouro. Eu não tinha sede, por isso recusei. But it is free, respondeu incrédulo.

Agora já cheguei ao vidro da Apple Store. Deve estar quase na minha vez. O Jonathan já vem a caminho.

Amanhã vou para a Nova Zelândia. Tive de arranjar uma tradução da minha carta de condução para poder conduzir. A senhora, mexicana MariPaz, fez-ma por email, e não se importou que eu lá passasse no domingo em casa dela, para lhe deixar o dinheiro. Can I trust you, perguntou. As pessoas são incríveis.

Acho que a Nova Zelândia também vai ser.

Tarefa feita. E assim ganhei sessenta dólares!

Oscar Wylee

Como se antecipava, os últimos dias não têm sido muito divertidos. Estamos completamente inundados com trabalhos e estudos para os intermédios que temos, e parece que não sobra tempo para mais nada. Aliás, no sábado já tive o meu primeiro, o de Transnational Management, que até me correu bem – tendo em conta o pouco que estudei, comparado com o que devia ter estudado.

E porque estudei tão pouco, alguns indagarão. Pois bem, a verdade é que surgiu uma oportunidade de trabalho simplesmente irrecusável, e portanto perdi um dos dias que tinha destinado a estudar a trabalhar ao invés.

O trabalho, além de (muito) bem pago, era divertido e algo de que gosto e com que me divirto. O objectivo era pegar numa série de óculos e andar com eles pela cidade fora, fotografando-os em ambientes interessantes e “cool”. Mais tarde as fotografias seriam utilizadas para redes sociais, Instagram, Facebook e assim.

Oscar Wylee é a marca destes óculos, e é uma nova empresa acabadinha de começar aqui na Austrália. Tem imensos designs engraçados a que recomendo a vossa apreciação caso estejam necessitados de modernas lunetes, e funciona tudo online, com envios grátis e devoluções também, se necessárias. Não estou seguro se funcionam fora da Oceânia, ainda assim. Mas vale a pena perguntar. E já agora podem referir-me nessa pergunta, “Vim cá parar através do blog do Francisco” que assim caio nas boas graças dos gerentes. Obrigado pela ajuda. E já agora façam like no Facebook!

Eles são dois chineses australianos, que vivem cá desde sempre, e são ainda bastante jovens. São daquele género de Chinês moderno, que se encontraria nos Estados Unidos ou nos laboratórios do CSI, não daqueles que há na UTS e que dormem em cima de livros na biblioteca. Acolheram-me com muita simpatia, com bom dinheiro e promessas de trabalhos futuros.

Ironicamente, enquanto eu andava a vaguear por Sydney à procura dos melhores spots, os meus colegas de casa arranjaram também um trabalho na Oscar Wylee, sem saberem que eu lá estava. O mundo realmente é um bidé, alguns diriam. Outros diriam “such coincidence, man, such coincidence”.

Então lá andei pela cidade fora fotografando, com azar porque o tempo estava chuvoso e a luz pobre, mas havia urgência, e havia que entregar as fotografias até ao fim do dia. Quando as entreguei, foram um sucesso, e recebi rasgados elogios. Até me pediram para lhes dar as minhas fotografias do Festival of the Winds, porque eram muito boa onda. Óptimo para mim, soube bem o reconhecimento!

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Quando lá cheguei ao escritório para lhes dar o material, lá estava o Pulpo Paul, o Diego D’Alessio (a.k.a. Negro) e o Joaco, também a trabalhar para eles. Todos em animada conversa, em ambiente quase familiar, mas a laborar ao mesmo tempo. Enquanto esperava que as fotografias fossem transferidas para o computador, juntei-me a eles. Perguntei como se tinham conhecido todos, e como tinham chegado à conclusão de que estávamos a trabalhar para a mesma pessoa. Claro que o Pulpo tinha de dizer à frente dos gerentes que “You mentioned you were working for two chinese, and so I did the math”. É que nós nem sabemos se eles são mesmo chineses – têm só os olhos mais preguiçosos. A sorte é que eles são descontraídos e riram-se. Mas se fossem os da UTS não teriam gostado de certeza! Principalmente as asiáticas damas-falcão que nos previnem de copiar nos testes com o seu fuzilador olhar.

O trabalho, esse, não ficou terminado naquele dia, e portanto hoje tivemos de ir lá dar os retoques finais. Era uma tarefa simples, de automatismos, que às tantas já fazíamos sem pensar, em piloto automático.  Tira a película. Abre a caixa branca. Tira a caixa dos óculos. Atira o invólucro para o lixo. Tira os óculos lá de dentro. Fecha a caixa. Distribui os óculos pelos devidos recipientes. Põe a caixa de óculos dentro da branca. Volta a colocar a película. Repete.

Sempre assim. Lá estivemos todos. Fez-se bem porque íamos conversando no entretanto, em regime de multi-tasking, insultando a lentidão de uns, e desenvolvendo inovadoras técnicas que permitiam tirar a película mais rapidamente, ou então fazendo disso algo divertido, apesar de não o ser definitivamente. Ao todo estivemos lá umas sete ou oito horas, se somarmos os dois dias em que lá fomos. Uns estiveram mais tempo do que outros, mas no fim ainda ganhámos todos uns dinheiros agradáveis. Não sobra assim nenhuma desculpa para não efectuar o Bungee Jumping na Nova Zelândia.

Esse país é onde pretendo chegar dentro de quatro dias. Tenho só dois intermédios pela frente, e mais um trabalho de ir para a fila da Apple Store comprar um iPhone 5 para um ocupado chinoca que não pode perder esse tempo – então paga-mo.

Antecipo histórias inesquecíveis e relatos insólitos de ursos e uruk-hais, e espero com ansiedade o momento em que finalmente vou pisar terras kiwi pela segunda, e infelizmente talvez última, ocasião nesta minha vida.

Pode ser que encontre o Peter Jackson!

E Tudo o Vento Levou

Na sexta feira à noite perdi tudo o que restava do meu cabelo. Estou careca. E desta vez em sentido literalmente calvo. Não foi premeditado. O plano era rapar com o pente de vinte e cinco milímetros, mas por engano ou conspiração o meu argentino barbeiro cometeu um erro – e deixou-me uma clareira enorme mesmo no meio da nuca. A única forma de solucionar o problema foi rapar o restante ao mesmo nível, para que pelo menos fosse homogéneo.

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Não fiquei satisfeito, a princípio. Nada satisfeito. Estava horrível. “O que fiz com a minha vida, com que fiz com a minha nobre vida”. Perdi a cabeça. Perdi literalmente a cabeça. ‘Está increible, boludo, a mi me encanta!’
Imagino, já que foste tu que o cortaste, coirão.

Na noite do desbaste fomos sair e rapei um frio gigantesco. Se calhar devia dizer antes “apanhei”, até porque não estava a achar graça nenhuma à novidade. Mas estranhamente, no dia a seguir, de cabeça fresca, vi o espelho e já não achei assim tão mal. Foi crescendo em mim. Epá até gosto do estilo. O turning point foi quando me começaram a chamar Pepe e Lincoln Burrows. Aí sim, conformei-me totalmente e fiz as pazes com o meu cabelo de que agora gosto e sempre cofio. É óptimo para mexer, é um ouricinho. É um misterioso oricinho.

No Domingo, já com o cabelo mais crescido – e não estou a exagerar, cresceu mesmo – decidi ir cedo até Bondi. Era o Festival of the Winds, evento anual onde se juntam vários criadores de papagaios para mostrarem as suas mais recentes criações. Portanto saí de casa cedo, que começava às dez, pus creme-do-sol na cabeça como quem põe champô – pior do que uma careca é uma escaldada careca – apanhei o comboio, depois o autocarro, e lá cheguei. Estava vento, e ainda bem. O festival ainda não tinha começado, portanto decidi ir espreitar os também famosos Bondi markets, uma espécie de feira da ladra cá do sítio. Tinha imensas barraquinhas com roupas, velas naturais, bugigangas e parafernálias inúteis que dá vontade de comprar e depois perder. Havia imensa gente, imensos vendedores de chinelos e tabaco, típicos australianos daqueles mesmo no worries, todos hippies porreiros. Até ia comprar uma t-shirt, ainda marcado pelos gritos inesquecíveis de Carcavelos, Olha a cinco euros, mas acabei por recuar quando descobri que o artigo mais barato custava vinte e cinco dólares e cheirava a mula velha.

Prossegui para o festival, que agora já estava de pé, com montes de papagaios ao vento. Havia barraquinhas de comidas internacionais, música ao vivo e uma tenda onde uma velhota gordinha se sentava e falava ao microfone. Contava a história dos papagaios, mas ninguém ouvia porque todos estavam mais interessados em ver o espectáculo. Havia milhares, de todos os tamanhos, alguns maiores do que eu, em forma de ursos voadores, tigres alados, baleias flutuantes, caranguejos saltitantes. E o melhor é que eram construídos de maneira a parecer que se mexiam. Com o vento, a baleia mexia a boca, o tigre gatinhava no ar, e o caranguejo abria as pinças. Apesar do vento estava um calorzinho secreto que só se sentia durante pausas momentâneas, e a água estava espectacular e cheia de surfistas. Abanquei e li um livro, só queria estar descansadinho pois à tarde tinha de ir acabar o trabalho de estratégia.

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No regresso para casa tive um encontro com uma chinesa no autocarro, que estava com medo de mim, principalmente quando ameacei abrir a mochila para tirar o meu telefone. Acho mesmo que ela me considerou terrorista ou pior, mas não percebo porque terá ela julgado tal coisa. Não me vem nada à cabeça.

Entretanto, quando cheguei a casa, recebi a nobre notícia de que a máquina de secar se tinha avariado definitivamente, e portanto a partir de agora a roupa teria de ser secada à moda antiga. Escusado será dizer que agora a casa é um medieval estendal de roupas húmidas e já a cheirar a mofo, espalhadas no sofá, na varanda, nas cadeiras. Ah, lar doce lar.
Ainda comprámos um estendaleco de sete dólares, mas evidentemente já foi monopolizado pelos calzonzillos argentinos e não há espaço para mais… Creio que não tarda vamos deixar de lavar a roupa, e aí sim podem chamar os laboratórios todos que quiserem, porque de certeza que vamos desenvolver aqui bactérias nunca antes vistas.

E antes que me esqueça, há outra novidade. Há duas semanas fui a uma entrevista de trabalho para uma posição num café. Alguns de vós gostaram da imagem da minha pessoa com um avental, disseram que seria genial. Pois bem, posso adiantar-vos que não vou trabalhar nesse café (o dono não gostou que eu me ausentasse durante duas semanas durante a viagem à Nova Zelândia), mas consegui outra tarefa, igualmente engraçada. Tenho de me mascarar. De animal. Fofinho. É para um evento qualquer que pretende promover os animais. Vai ser engraçado. Imaginem, um fatinho completo, de pinguim, a entreter convidados…
Além disso, amanhã também tenho um trabalho a tirar umas fotografias dum produto qualquer. Impecável, assim vou ganhando uns trocos, grão a grão enche a galinha o papo, cabelo a cabelo replanta o velho a careca.

Outra novidade que vale a pena mencionar é a entrevista que fiz hoje para Estratégia. Tive que ir até à Foxtel, Meo cá do sítio, entrevistar a directora de Strategic Planning. Foi engraçado, ela era muito simpática, aprendemos imenso, e ainda visitámos os estúdios e tal. Valeu a pena deslocar-me até lá e assim cruzei finalmente a Harbour Bridge até North Sydney.

De resto, os dias têm sido preenchidos com muito estudo e muitos assignments, e com o meu cabelo a crescer rapidamente, por estranho que pareça. O Diego gostou muito da sua obra, e não se cansa de dizer que quando está comigo se sente no Prison Break, quando caminhamos pelas ruas. Especialmente quando estou de óculos escuros, I feel like doing something adventurous man, it’s amazing!

O tempo não tem estado tão bom – o meu filhote está doente – mas até é bom porque tenho estado a trabalhar enfiado dentro de casa e assim não perco tanto.

Conto agora os dias para a Nova Zelândia. Por cá também não vou perder muito nestes dias, agora que tudo o vento levou. A máquina de secar, os papagaios, o meu cabelo.

O meu cabelo.
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