As Campas

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Aqui vos mando fotografias das nossas brilhantes campervans da Nova Zelandia.

A viagem esta’ a ser um especta’culo, ja vimos montes de sitios espectaculares e ate fizemos uma fogueira com churrasco na praia!

As nossas condicoes de vida sao muito precarias, vivemos como pobres e sem espaco para nada, mas lentamente nos vamos habituando e ganhando destreza nos movimentos.

A internet tambem e’ complicada e por isso escrevo a pressa, mas quis so deixar aqui estas fotografias para ja. A proxima ponho e escrevo mais!Imagem

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As Pessoas

As pessoas são incríveis. Estou na fila da Apple Store em Sydney, na esquina da York com a King, ainda longe da George onde fica a loja, e há pessoas. Há milhares de pessoas. Um burburinho gigante que se sobrepõe aos carros e aos semáforos que aqui apitam. Vejo uma família completa de indianos, vários chineses, já ouvi italiano e chistes em Espanhol. Estão todos em festa, é o iPhone Cinco.

Há grades de segurança a separar a fila dos meros transeuntes, e há milhares de agentes da Apple com tshirts azuis a explicar as novas funções, a oferecer garrafas de água, a fecolher inquéritos e a emprestar chapéus de chuva às pessoas que estão em trechos não cobertos por toldos de lojas, sim porque está a chover – mas ninguém se importa. Os azuis vêm ter connosco, querem saber quem somos, de onde somos, o que comemos e porque estamos na fila. Todos têm histórias extraordinárias de como têm andado a poupar, de como este é o melhor dia do ano e como a Apple é incrível. Eu? Estou aqui a guardar lugar para um chinês demasiado ocupado a trabalhar, e que assim não se pôde juntar à festa.

As pessoas são incríveis. Imensos carros param ao pé da fila a perguntar se estamos mesmo à espera de um telefone. Riem-se em jeito de Coitaditos, apitam e aceleram. Há até um tipo no começo da fila que tem um cartaz daqueles que cobrem todo o corpo, estilo Estados Unidos, desafiando quem desejar a apostar que ele não terá o iPhone Cinco antes de ser anunciado o Seis. Todos olham e riem. Vão conversando, bebericando as águas que, por serem grátis, despoletam insaciáveis sedes e lutas surdas pelas restantes garrafas. Eu consegui uma. Inchem.

Acho que vou estar aqui umas duas horinhas, portanto tenho suficiente tempo para escrever uma última vez antes da Nova Zelândia. Tive só de explicar aqui a uma senhora Azul que não pretendo comprar o iPhone Cinco, que apenas guardo lugar para que alguém o faça. Já recebi um papeleco que me atribui um determinado iPhone. Já é meu, agora há só que esperar.

Entretanto, estou de férias. Tive hoje de manhã o meu último intermédio, o de Finanças, e todos correram razoavelmente como esperado. Intermédio. O que interessa é que estou de férias. Já não me importa o odor nauseabundo a cebola confitada que gramei durante o exame, nem sequer o tempo que tive que dedicar a isto. São águas passadas, agora preocupo-me mais com as que me vão caindo na desnuda careca.

Estou aqui há meia hora e estou a meio do caminho, acabam de me informar. Até está a andar bem. Mal sair daqui vou almoçar. Acho que vou ao Subway. É uma espécie de companhia das Sandes para quem não conhece, aqui é muito popular. Até ao décimo dia do próximo mês está em vigor uma campanha muito agradável em que oferecem uma refeição. Basta registar no club de membros com o endereço electrónico. Escusado será dizer, portanto, que os argentinos já disfrutaram desta promoção quatro vezes, com quatro contas de email diferentes. It’s ameicing man, is free!

Já sabem como reagimos a coisas free neste país. No outro dia estávamos na biblioteca a estudar e o Negro sugeriu que fôssemos beber água ao bebedouro. Eu não tinha sede, por isso recusei. But it is free, respondeu incrédulo.

Agora já cheguei ao vidro da Apple Store. Deve estar quase na minha vez. O Jonathan já vem a caminho.

Amanhã vou para a Nova Zelândia. Tive de arranjar uma tradução da minha carta de condução para poder conduzir. A senhora, mexicana MariPaz, fez-ma por email, e não se importou que eu lá passasse no domingo em casa dela, para lhe deixar o dinheiro. Can I trust you, perguntou. As pessoas são incríveis.

Acho que a Nova Zelândia também vai ser.

Tarefa feita. E assim ganhei sessenta dólares!

Oscar Wylee

Como se antecipava, os últimos dias não têm sido muito divertidos. Estamos completamente inundados com trabalhos e estudos para os intermédios que temos, e parece que não sobra tempo para mais nada. Aliás, no sábado já tive o meu primeiro, o de Transnational Management, que até me correu bem – tendo em conta o pouco que estudei, comparado com o que devia ter estudado.

E porque estudei tão pouco, alguns indagarão. Pois bem, a verdade é que surgiu uma oportunidade de trabalho simplesmente irrecusável, e portanto perdi um dos dias que tinha destinado a estudar a trabalhar ao invés.

O trabalho, além de (muito) bem pago, era divertido e algo de que gosto e com que me divirto. O objectivo era pegar numa série de óculos e andar com eles pela cidade fora, fotografando-os em ambientes interessantes e “cool”. Mais tarde as fotografias seriam utilizadas para redes sociais, Instagram, Facebook e assim.

Oscar Wylee é a marca destes óculos, e é uma nova empresa acabadinha de começar aqui na Austrália. Tem imensos designs engraçados a que recomendo a vossa apreciação caso estejam necessitados de modernas lunetes, e funciona tudo online, com envios grátis e devoluções também, se necessárias. Não estou seguro se funcionam fora da Oceânia, ainda assim. Mas vale a pena perguntar. E já agora podem referir-me nessa pergunta, “Vim cá parar através do blog do Francisco” que assim caio nas boas graças dos gerentes. Obrigado pela ajuda. E já agora façam like no Facebook!

Eles são dois chineses australianos, que vivem cá desde sempre, e são ainda bastante jovens. São daquele género de Chinês moderno, que se encontraria nos Estados Unidos ou nos laboratórios do CSI, não daqueles que há na UTS e que dormem em cima de livros na biblioteca. Acolheram-me com muita simpatia, com bom dinheiro e promessas de trabalhos futuros.

Ironicamente, enquanto eu andava a vaguear por Sydney à procura dos melhores spots, os meus colegas de casa arranjaram também um trabalho na Oscar Wylee, sem saberem que eu lá estava. O mundo realmente é um bidé, alguns diriam. Outros diriam “such coincidence, man, such coincidence”.

Então lá andei pela cidade fora fotografando, com azar porque o tempo estava chuvoso e a luz pobre, mas havia urgência, e havia que entregar as fotografias até ao fim do dia. Quando as entreguei, foram um sucesso, e recebi rasgados elogios. Até me pediram para lhes dar as minhas fotografias do Festival of the Winds, porque eram muito boa onda. Óptimo para mim, soube bem o reconhecimento!

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Quando lá cheguei ao escritório para lhes dar o material, lá estava o Pulpo Paul, o Diego D’Alessio (a.k.a. Negro) e o Joaco, também a trabalhar para eles. Todos em animada conversa, em ambiente quase familiar, mas a laborar ao mesmo tempo. Enquanto esperava que as fotografias fossem transferidas para o computador, juntei-me a eles. Perguntei como se tinham conhecido todos, e como tinham chegado à conclusão de que estávamos a trabalhar para a mesma pessoa. Claro que o Pulpo tinha de dizer à frente dos gerentes que “You mentioned you were working for two chinese, and so I did the math”. É que nós nem sabemos se eles são mesmo chineses – têm só os olhos mais preguiçosos. A sorte é que eles são descontraídos e riram-se. Mas se fossem os da UTS não teriam gostado de certeza! Principalmente as asiáticas damas-falcão que nos previnem de copiar nos testes com o seu fuzilador olhar.

O trabalho, esse, não ficou terminado naquele dia, e portanto hoje tivemos de ir lá dar os retoques finais. Era uma tarefa simples, de automatismos, que às tantas já fazíamos sem pensar, em piloto automático.  Tira a película. Abre a caixa branca. Tira a caixa dos óculos. Atira o invólucro para o lixo. Tira os óculos lá de dentro. Fecha a caixa. Distribui os óculos pelos devidos recipientes. Põe a caixa de óculos dentro da branca. Volta a colocar a película. Repete.

Sempre assim. Lá estivemos todos. Fez-se bem porque íamos conversando no entretanto, em regime de multi-tasking, insultando a lentidão de uns, e desenvolvendo inovadoras técnicas que permitiam tirar a película mais rapidamente, ou então fazendo disso algo divertido, apesar de não o ser definitivamente. Ao todo estivemos lá umas sete ou oito horas, se somarmos os dois dias em que lá fomos. Uns estiveram mais tempo do que outros, mas no fim ainda ganhámos todos uns dinheiros agradáveis. Não sobra assim nenhuma desculpa para não efectuar o Bungee Jumping na Nova Zelândia.

Esse país é onde pretendo chegar dentro de quatro dias. Tenho só dois intermédios pela frente, e mais um trabalho de ir para a fila da Apple Store comprar um iPhone 5 para um ocupado chinoca que não pode perder esse tempo – então paga-mo.

Antecipo histórias inesquecíveis e relatos insólitos de ursos e uruk-hais, e espero com ansiedade o momento em que finalmente vou pisar terras kiwi pela segunda, e infelizmente talvez última, ocasião nesta minha vida.

Pode ser que encontre o Peter Jackson!

E Tudo o Vento Levou

Na sexta feira à noite perdi tudo o que restava do meu cabelo. Estou careca. E desta vez em sentido literalmente calvo. Não foi premeditado. O plano era rapar com o pente de vinte e cinco milímetros, mas por engano ou conspiração o meu argentino barbeiro cometeu um erro – e deixou-me uma clareira enorme mesmo no meio da nuca. A única forma de solucionar o problema foi rapar o restante ao mesmo nível, para que pelo menos fosse homogéneo.

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Não fiquei satisfeito, a princípio. Nada satisfeito. Estava horrível. “O que fiz com a minha vida, com que fiz com a minha nobre vida”. Perdi a cabeça. Perdi literalmente a cabeça. ‘Está increible, boludo, a mi me encanta!’
Imagino, já que foste tu que o cortaste, coirão.

Na noite do desbaste fomos sair e rapei um frio gigantesco. Se calhar devia dizer antes “apanhei”, até porque não estava a achar graça nenhuma à novidade. Mas estranhamente, no dia a seguir, de cabeça fresca, vi o espelho e já não achei assim tão mal. Foi crescendo em mim. Epá até gosto do estilo. O turning point foi quando me começaram a chamar Pepe e Lincoln Burrows. Aí sim, conformei-me totalmente e fiz as pazes com o meu cabelo de que agora gosto e sempre cofio. É óptimo para mexer, é um ouricinho. É um misterioso oricinho.

No Domingo, já com o cabelo mais crescido – e não estou a exagerar, cresceu mesmo – decidi ir cedo até Bondi. Era o Festival of the Winds, evento anual onde se juntam vários criadores de papagaios para mostrarem as suas mais recentes criações. Portanto saí de casa cedo, que começava às dez, pus creme-do-sol na cabeça como quem põe champô – pior do que uma careca é uma escaldada careca – apanhei o comboio, depois o autocarro, e lá cheguei. Estava vento, e ainda bem. O festival ainda não tinha começado, portanto decidi ir espreitar os também famosos Bondi markets, uma espécie de feira da ladra cá do sítio. Tinha imensas barraquinhas com roupas, velas naturais, bugigangas e parafernálias inúteis que dá vontade de comprar e depois perder. Havia imensa gente, imensos vendedores de chinelos e tabaco, típicos australianos daqueles mesmo no worries, todos hippies porreiros. Até ia comprar uma t-shirt, ainda marcado pelos gritos inesquecíveis de Carcavelos, Olha a cinco euros, mas acabei por recuar quando descobri que o artigo mais barato custava vinte e cinco dólares e cheirava a mula velha.

Prossegui para o festival, que agora já estava de pé, com montes de papagaios ao vento. Havia barraquinhas de comidas internacionais, música ao vivo e uma tenda onde uma velhota gordinha se sentava e falava ao microfone. Contava a história dos papagaios, mas ninguém ouvia porque todos estavam mais interessados em ver o espectáculo. Havia milhares, de todos os tamanhos, alguns maiores do que eu, em forma de ursos voadores, tigres alados, baleias flutuantes, caranguejos saltitantes. E o melhor é que eram construídos de maneira a parecer que se mexiam. Com o vento, a baleia mexia a boca, o tigre gatinhava no ar, e o caranguejo abria as pinças. Apesar do vento estava um calorzinho secreto que só se sentia durante pausas momentâneas, e a água estava espectacular e cheia de surfistas. Abanquei e li um livro, só queria estar descansadinho pois à tarde tinha de ir acabar o trabalho de estratégia.

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No regresso para casa tive um encontro com uma chinesa no autocarro, que estava com medo de mim, principalmente quando ameacei abrir a mochila para tirar o meu telefone. Acho mesmo que ela me considerou terrorista ou pior, mas não percebo porque terá ela julgado tal coisa. Não me vem nada à cabeça.

Entretanto, quando cheguei a casa, recebi a nobre notícia de que a máquina de secar se tinha avariado definitivamente, e portanto a partir de agora a roupa teria de ser secada à moda antiga. Escusado será dizer que agora a casa é um medieval estendal de roupas húmidas e já a cheirar a mofo, espalhadas no sofá, na varanda, nas cadeiras. Ah, lar doce lar.
Ainda comprámos um estendaleco de sete dólares, mas evidentemente já foi monopolizado pelos calzonzillos argentinos e não há espaço para mais… Creio que não tarda vamos deixar de lavar a roupa, e aí sim podem chamar os laboratórios todos que quiserem, porque de certeza que vamos desenvolver aqui bactérias nunca antes vistas.

E antes que me esqueça, há outra novidade. Há duas semanas fui a uma entrevista de trabalho para uma posição num café. Alguns de vós gostaram da imagem da minha pessoa com um avental, disseram que seria genial. Pois bem, posso adiantar-vos que não vou trabalhar nesse café (o dono não gostou que eu me ausentasse durante duas semanas durante a viagem à Nova Zelândia), mas consegui outra tarefa, igualmente engraçada. Tenho de me mascarar. De animal. Fofinho. É para um evento qualquer que pretende promover os animais. Vai ser engraçado. Imaginem, um fatinho completo, de pinguim, a entreter convidados…
Além disso, amanhã também tenho um trabalho a tirar umas fotografias dum produto qualquer. Impecável, assim vou ganhando uns trocos, grão a grão enche a galinha o papo, cabelo a cabelo replanta o velho a careca.

Outra novidade que vale a pena mencionar é a entrevista que fiz hoje para Estratégia. Tive que ir até à Foxtel, Meo cá do sítio, entrevistar a directora de Strategic Planning. Foi engraçado, ela era muito simpática, aprendemos imenso, e ainda visitámos os estúdios e tal. Valeu a pena deslocar-me até lá e assim cruzei finalmente a Harbour Bridge até North Sydney.

De resto, os dias têm sido preenchidos com muito estudo e muitos assignments, e com o meu cabelo a crescer rapidamente, por estranho que pareça. O Diego gostou muito da sua obra, e não se cansa de dizer que quando está comigo se sente no Prison Break, quando caminhamos pelas ruas. Especialmente quando estou de óculos escuros, I feel like doing something adventurous man, it’s amazing!

O tempo não tem estado tão bom – o meu filhote está doente – mas até é bom porque tenho estado a trabalhar enfiado dentro de casa e assim não perco tanto.

Conto agora os dias para a Nova Zelândia. Por cá também não vou perder muito nestes dias, agora que tudo o vento levou. A máquina de secar, os papagaios, o meu cabelo.

O meu cabelo.
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Chegou


(ouvir a ler!)

Esta semana o Verão chegou e já não se vai mais embora. Há sol e há calor, há biquinis e chinelos, sal e escaldões. Tudo parece perfeitamente alinhado com o hino ‘eu gosto é do verão’ e portanto canto-o e sinto-o e faço-o. Eu gosto é do Verão, de passear de prancha na mão, saltarmos e rirmos na praia, de nadar e apanhar um escaldão.

Para a maioria de vós que me lêem, isso não interessa ou não é novidade, porque o hemisfério dos países do Norte já o teve e já quase não o tem, mas para mim é da melhores coisas que têm acontecido aqui no Sul. Imagino que seja quase como ter um filho, e assim imaginar tudo o que ele vai ser e em todas as coisas espectaculares em que se pode tormar. É decidir como ele vai crescer, que desportos vai praticar, que música irá escutar e que nome vai receber. É a promessa de algo novo e refrescantemente bom e diferente, e ao mesmo tempo quente, ao mesmo tempo seco como o deserto dormente no fim da tarde.

No domingo, uma vez livre do diabólico trabalho de Finanças que me atormentou a semana anterior, decidi ir para Manly, para a praia onde fui no dia do meu vigésimo aniversário. Passámos lá a tarde, embora não estivesse muito calor, e aproveitámos para explorar umas grutas que havia lá ao pé. A praia tem o inconveniente de estar virada para Este, portanto fica sem luz muito mais cedo do que o resto dos lugares – sobretudo porque é orlada por uma série de árvores gigantes que deixam sombras a partir das três.

Portanto, apesar de nāo estar muito calor, o dia foi um agradável augúrio do tão-antecipado e agora iminente Verāo.

De maneira que vivi a segunda-feira pesada de forma leviana, celebrando secretamente a boa-nova, e ansiando pela folga do dia seguinte. O Diego fazia anos à meia-noite, portanto fomos sair e divertimo-nos com novas histórias e piadas que inevitavelmente nascem nestes ambientes, como os pinhões aparecem no Algarve.

Na terça fomos para Bronte, outra praia onde estivemos no outro dia, e fizemos lá um barbecue de aniversário. Nem todos os nossos amigos puderam vir porque muitos tinham aulas, mas mesmo assim estivemos muito bem. Há um relvado enorme que antecede a praia, a caminho do mar e da areia, por onde se espalham várias barraquinhas de madeira, com mesinhas e bancos para se almoçar. E como se não fosse suficiente, há também um série de chapas metálicas onde cada um pode cozinhar conforme lhe aprazir, sem pagar nem reservar. Num país como este, isso é quase como encontrar uma ostra de pérola escura à beira-mar!

Portanto fizemos um churrasquito de hamburgueres e salsichas, muito à moda Australiana e dos seus ‘barbies’, com a Rocio e a nossa bola de futebol dos pokemon, que sacámos gratuitamente da sala de perdidos e achados de uma das residências. Depois, de pança cheia no sol quente, avançámos até à praia, e lá passámos a tarde, a conversar, a dormitar ao solinho, a ouvir o som do Verão que cada vez mais anuncia o seu regresso.

Infelizmente tive que sair mais cedo para ir a um evento do Clube de Fotografia, onde ofereciam pizzas gratis e uma exposição miserável com os melhores trabalhos da última excursão. Não foi nada de especial – preferia ter ficado em Bronte – mas sempre deu para conhecer outras pessoas, principalmente chineses, e variar de ambientes.

Na quarta feira saí cedo de casa, tomei banho rapido, e fui dar uma volta pela cidade incrível e declaradamente mudada. Lembrei-me de Lisboa em Julho, apesar de ser diferente com mais arranha-ceus, mas igual na luz e nas pessoas claramente felizes, nas mulheres queimadas mais despidas e com sandálias, no cheiro leve da preguiça quente e viva. Fui a uma loja comprar finalmente o tripé para a minha máquina, e depois limitei-me a andar completamente à deriva, nas ruas que agora já me são muito familiares, pois já sei que a King cruza com a York, mas que também dá para ir logo pela Clarence e depois vira-se à direita naquela rua estreita que tem o hotel e a esplanada simpática. Conheço-as já bem melhor do que algumas partes de Lisboa onde ninguém vai, como as avenidas novas ou a diabólica encruzilhada da Praça de Espanha, e fico contente por já ir conhecendo esta cidade e alguns dos seus segredos mais íntimos.

Andei o dia todo de calçòes e ténis-de-verão, daqueles que têm areia lá dentro e já perderam (ou ganharam) a côr por tantas vezes os calçar com os pés molhados e salgados. Andei que me fartei, mesmo à tarde depois de o Sol se pôr e se levantar o vento quente de bife na pedra, vento de fim do dia e petiscos no alpendre, vento de verão e caipirinhas.

Na quinta feira dia de hoje acordámos muito cedo, antes das oito, para irmos até Bondi antes da aula de estratégia. Estava incrível. Montes de pessoas interessantes, loiraças atraentes, surfistas insistentes.

A água estava geladinha como no Algarve, dezassete graus diria o meu engenheiro Avô, mas isso não me impediu de dar dois vigorosos mergulhos grandes. Já o tinha decretado mentalmente – hoje tinha mesmo de ir.

Uma vez mais andei o dia todo de calções, de toalha aos ombros, ainda salgado, com o cabelo despenteado e a ventilar o cheiro típico de tshirt-depois-da-praia, snifando os pulsos com cheiro a côco e creme-do-sol.

Nem acredito que finalmente acabou a chuva e o frio, que finalmente posso ir à praia de calções, e que finalmente o chão da sala está cheio de areia e sal. É a merecida recompensa por quase não ter tido Verão na Lusitânia, e a paga por ter escolhido este destino tão longínquo e inacreditável.

Claro que agora não consigo parar de pensar neste meu novo filho que é o Verão, e vislumbrar todo o seu potencial, todas as viagens e aventuras que lhe esperam, todas as festas, todas as histórias de fogueiras e festas de areal.

Há só que fazer o esforçozinho académico para estas duas semanitas de testes intermédios e tarefas académicas, mas não me importo, porque é Verào e cheira Verão.

“Foi para isto que vim para a Austrália”, concordámos cá em casa.

Rocio e “Robinson Crusoé e o seu elaborado plano de legislação insular”

No último post expus a nossa promessa de comprarmos uma guitarra para animar as noites mais calmas e para servir de mascote aqui do número 34. Pois bem, dissemos que a compraríamos e assim o fizemos. Temos agora uma guitarra e chama-se Rocio, em nome de uma bela mulher que conhecemos por cá por terras do canguru, e é a nossa nova flatmate.

Está sempre a tocar, sem parar, de maneira que participa mais activamente na vida do lar do que qualquer um de nós. Comprámo-la por quarenta dólares (com estojinho) através do GumTree, o CustoJusto cá do sítio. Os argentinos sabem todos tocar, especialmente o Joaquín que é um craque nato. Dêem-lhe uma música qualquer, que ele vai ver os acordes e dois minutos depois já a sabe reproduzir com excelência. É um espectáculo, e por isso é que está sempre a tocar, em vez de termos as minhas coluninhas manhosas cujos sons normalmente geram discórdia, Que es eso, boludo? Horrible tema!

Como poderão imaginar, já o pus a estudar temas essenciais a impôr nesta república das Bananas, começando pelo já clássico Guaranteed, também o Stand By Me e ainda estou a tentar implantar o Cavaleiro Andante, mas os acordes aparentemente são bery dificult man. Continuarei a insistir.

Isto para tentar fazer-vos ver que a guitarra é mesmo uma excelente amiga. E como tal, há sempre alguém a tocá-la. Seja de manhã, à tarde, à noite, antes de ir sair, depois de ir sair, para acordar, para cozinhar, para boludiar – está sempre alguém a praticar. Às vezes dão pregos e fica desagradável, como aquelas aulas de música no quinto ano em que ninguém sabia tocar o miserável pífaro e o máximo que saía dali era uma desconjuntada mixórdia de silvos lancinantes, mas na maioria do tempo é agradável e faz companhia.

Por isso mesmo, e pela beleza do seu som e das suas curvas, decidimos baptizá-la Rocio, como vos disse. A verdade é que não foi uma coisa a que dedicámos muito tempo, e como a outra opção era Zutzco e o Paul não conseguia dizer bem, ficou Rocio, a nossa mascote.

E por falar nisso, finalmente me lembrei de vos contar aqui o nosso elaborado plano de legislação para este nobre pardieiro de onde vos escrevo. É que nós, à semelhança de Robinson Crusoé, também criámos um sistema de leis e directórias, traçadas com o intuito de instaurar a ordem e prevenir a insanidade mental das nossas pessoas. Em tudo somos iguais ao famoso náufrago – até temos uma mascote, só não se chama é Wilson.

Assim, comecemos pela loiça. Após acto eleitoral, foi imposto o sistema de limpezas proposto pelo Partido da Borga, a.k.a. Partido da Argentina. O plano eleitoral respectivo passava pelo seguinte: para começar, cada um lava a respectiva loiça de qualquer refeição que não seja almoço ou jantar. Isto porque, nestas duas, cada um lava também os respectivos pratos e copos, mas depois há um elemento apontado pelo tribunal que está encarregue de lavar também as “Common Things”. Common thing é, por definição imposta pelo Código da Javardice, tudo o que fôr utilizado com o intuito de alimentar quatro ou mais pessoas.

À semelhança de muitos planos eleitorais, esta solução parece ideal. Assim ninguém tem de lavar a sujeira dos outros, excepto num dia por semana, e são só três ou quatro panelas, o fogão e a toalha de mesa. Soa optimamente. Criámos então uma tabela com cerca de quatro semanas em que está claramente definido quem é responsável por cada dia. Lá está também designada a pessoa responsável por guardar as coisas nos respectivos armários, uma vez limpas e secas.

Nos primeiros dias, funcionou na perfeição. A cozinha estava sempre limpinha, havia sempre loiça disponível quando necessária e o chão estava aceitável. Mas uma semaninha depois, ou duzentas e quarenta horas talvez, começou a instalar-se a primeira erva daninha da sujidade e putrefacção. Começou com ocasionais esquecimentos, de pessoas que de facto não se lembravam de lavar os respectivos artigos. Depois progrediu para uma série de sinistros mais frequentes, e para um conjunto de pratos-de-ninguém que davam à costa do nosso já musguento lavatório. Junto destes, começaram a juntar-se copos,  talheres, cascas de fruta e resquícios de carnes duras de épocas megalíticas. Sempre a acumular, a empilhar, a sobrepôr.

Até que chegámos a um ponto, no outro dia, em que chegámos a um estado em que toda a cozinha era um exalante antro de miasmas e fumos orgânicos. O chão, esse, estava ainda pior do que após a house-warming party, cheio de permanentes graffitis de clara de ovo e folhas de salsa com corn flakes.

Decretámos que não podia continuar assim, que o sistema tem de mudar, etc etc, e evidentemente não mexemos a ponta e o mesmo sistema continua em vigor, apesar de já termos limpado o pior, por uma questão de saúde da comunidade. Pergunto-me quanto tempo durará.

Agora as casas de banho. Aconselho os leitores mais sensíveis a abandonarem a leitura a esta altura, e a voltarem quando escrever a próxima entrada neste blog. Para os mais corajosos, segurem-se bem nas vossas cadeiras. Segurem-se bem.

Neste requintado apartamento, há dois quartos de banho. Um deles, que viram no vídeo, tem uma pequena e inexplicável janela quadrada que dá para a rua, exactamente à altura compreendida entre o umbigo e as coxas, que não dá para fechar. E como se isso não fosse suficiente, o chuveiro é esquisito e frouxo, faz um barulho estranho e não tem altura suficiente para as torres que habitam estes metros quadrados. Então, na primeira semana, era muito engraçado e todos se vangloriavam das exuberantes danças que empreendiam junto da referida janela, para apreciação do público australiano e de quem mais estivesse a observar. Mas depois, perdeu toda a graça e todos ostentavam dolorosos torcicolos por estarem todos curvados no chuveiro. Então, subitamente as pessoas deixaram de tomar banho no referido lavabo e passaram a fazê-lo no outro, que é mais alto e menos exposto. A outra divisão ficou então conhecida por Shit Bathroom, por motivos óbvios que prefiro não explicar ou descrever com minúcia – não só por não ser muito agradável para os sentidos, mas também por me faltarem palavras suficientemente grandes para descrever a magnitude do nojo no estado mais puro e animalesco de uma orgulhosa pocilga.

Na outra casa de banho, como referi, é assim onde (quase) todos tomam banho, e quase ninguém desempenha outras actividades. Portanto, como decerto poderão vislumbrar novamente, não passa de um enlameado Alqueva escuro onde a superfície da banheira está repleta de detritos capilares e onde, todos gozam, há mais cabelo do que na minha cabeça.

As torneiras são cobertas por uma tenra carpete de pó que ninguém-limpa-porque-os-outros também-não-limpam e há um notório rasto de pegadas que decoram o chão e o tornam menos branco e aborrecido.

Na casa, é frequente ouvirem-se guturais secreções arrotais que se sobrepõem ao doce cantar da frágil Rocio, e que são nas palavras argentinas a forma mais digna de educação e decoro – especialmente à mesa e às refeições. É assim a nossa mais utilizada forma de cumprimento, juntamente com a frase que também usamos com frequência para todos os contextos, por soar bem e ser tão bela na sua simplicidade curta e versátil, “Fuck You”. O Paul, correcto alemão e educado praticante da etiqueta, limita-se a suspirar um inexorável mas resignado “Unbelievable” que ninguém ouve a não ser para achincalhar.

Aos almoços, normalmente cada um come a sua coisa, porque nem sempre o fazemos ao mesmo tempo. Os argentinos têm uma predilecção marcada pelos clássicos “fideos”: massa com salsa de tomate y crema como queijo por cima. Dizem que lhes faz impressão comer massa com carne ao lado. Para eles massa é só por si uma refeição. Para o Paul, a refeição preferida é ‘Chili con Carne‘, um alegado prato mexicano que deixa a casa a tresandar a pimentos e a outros elementos nefastos cujo nome não sei dizer.

Ao jantar, por outro lado, costumamos fazer uma refeição para todos, e jantamos em conjunto nesta contorcida família onde se vive sem preocupações e no mais fraterno ambiente de paródia e animação.

Se bem me conhecem, devem estar a indagar como é possível o meu eu-limpezas ainda não se ter fartado deste indescritível pântano de cheiros e restos, e digo-vos que a verdade é que também me pergunto o mesmo constantemente. É verdade que já perdi momentaneamente as estribeiras uma outra vez, mas na maior parte do tempo acho graça e opto antes por me rir.

Quando estou farto tenho sempre o quarto meu Templo, que me esforço mais para manter em condições. No resto do tempo, uno-me à malta e à Rocio com orgulho, e não consigo não gostar deste denso matagal a que chamamos Casa.

No outro dia estávamos a falar de como seria esta jornada tivéssemos nós ficado numa residência da Universidade. Quase em família, chegámos à conclusão de que não teria metade da graça e não iria contribuir em nada para a nossa formação nas Coisas do Lar.

Portanto, apesar do pandemónio e da sujeira, fico diariamemte feliz por ter vindo parar a esta casa, e não consigo imaginar um melhor destino para uma estadia nesta nobre cidade onde já colecciono um punhado de inesquecíveis recordações. E isso, só por si, já é suficiente para olhar para o lado e optar antes por alinhar e rir.

Dizem que a vida são dois dias, portanto mais vale fazer directa.

As Montanhas Azuis

Neste fim-de-semana decidimos fazer uma excursão até às Blue Mountains, a cerca de cem quilómetros de Sydney.

Estas Montanhas, como podem imaginar, não são azuis, receberam antes tal nome devido aos seus milhares de eucaliptos, que se estendem ao longo de toda a região e libertam uma substância que cria uma neblina azulada e opaca, especialmente durante a manhã.

Como ficam aqui ao lado, achámos que valia a pena ir, principalmente quando o bilhete de comboio custa só quatro dólares e dez cêntimos, se escolhermos desconto de estudante.

No sábado acordámos cedo, às seis, para apanharmos o comboio das oito e chegarmos lá a tempo de ainda aproveitar o dia. Escusado será dizer, numa casa onde habitam dois portugueses e três argentinos, que nos atrasámos com esplendor e que evidentemente perdemos o comboio. Felizmente ainda não tínhamos comprado os bilhetes, portanto limitámo-nos a esperar pelo próximo enquanto ouvíamos música nas minhas coluninhas, enquanto o Paul estudava, pois hoje tinha um quiz, enquanto gozavam com o facto de eu ter muitas tralhas e enquanto os mais sonolentos continuavam a praguejar, Que paja, boludo.

O comboio lá chegou, e depois de o galgarmos de lés a lés, lá encontrámos uma carruagem com lugares para todos e para os nossos pertences. A viagem durou duas efémeras horas que passámos a dormitar, de testa na janela, a ver a vida a passar suavemente, em escadinha, primeiro com prédios enormes de cimento maciço, a seguir com casas encarnadas de dois andares, depois com estábulos ocasionais e uma ou outra ovelha, e finalmente com uma planície ondulada ao chegar às Montanhas.

Chegámos a Katoomba já sobre as onze, a aldeia principal da região onde decidimos basear o nosso centro de operações. Procurámos rapidamente pela povoação o hostel mais barato, e acabámos por escolher o Katoomba Mountain Lodge. Largámos tudo no nosso dormitório frio e lúgubre, sem perder tempo e sem nos querermos arriscar a encontrar baratas ou ratazanas, e arrancámos para a manhã fresca.

Cheirava bem. Um cheiro frio que arranha as narinas e limpa as entranhas. Tínhamos todos mãos que não sentíamos, de tão geladas, cuidadosamente postas em bolsos ou enroladas para dentro das mangas da camisola, e andávamos a saltitar e de queixo-ao-peito, para aguentarmos a frialdade amiga do Inverno.

Caminhámos pela aldeia até Echo Point, um miradouro debruçado sobre as Three Sisters, principal atracção das Montanhas. De acordo com a lenda, houve em tempos uma guerra que obrigou a que as três princesas irmãs fossem escondidas dentro das rochas, para que ninguém as tomasse. No entanto, devido às voltas do tempo e da morte, alguém se esqueceu de as resgatar, pelo que ainda há quem acredite que as irmãs continuam lá enclausuradas, cada uma no seu pináculo.

Claramente que também acredito nesta versão, e consigo até imaginá-las lá dentro a bater na pedra dura e a gritar socorro, mas independentemente disso, a história é engraçada, e acima de tudo a vista sobre o vale é formidável.

Tirámos montes de fotografias, ritual já cimentado com os argentinos, e seguimos pela Prince Henry’s Track, um trilho que corre junto aos penhascos ancestrais que separam o vale de eucaliptos dos planaltos verdes. Enveredámos por uma série de bifurcações e escadinhas, sempre no meio da vegetação, à medida que o Sol ia caindo e que iam surgindo as primeiras queixas e cansaços. Pelo menos o frio já não nos alcançava, principalmente porque estávamos em movimento, mas também porque íamos cantando e assobiando músicas para quebrar o silêncio ecoante e marcar o ritmo da passada.

Fomos até às Katoomba Falls, umas raquíticas cataratas que ficavam no caminho, e seguimos até à Great Stairway, uma escadaria gigante com mais de mil degraus, que nos levaria ao vale silencioso lá no fundo. No entanto, optámos por não a descer, principalmente por preguiça, mas oficialmente por já ser tarde e por ser demasiado caro ir antes no famoso Scenic Railway, o comboio mais inclinado do mundo ou assim, que corre verticalmente rente à encosta avita e quebradiça.

De maneira que empreendemos a jornada de regresso, com passagem pelo supermercado para comprar mantimentos para o jantar e pequeno-almoço, e regressámos ao hostel esfomeados e algo desiludidos, principalmente os argentinos que esperavam ter visto pelo menos um canguru ou um koala.

Jantámos alarvemente na asquerosa cozinha do hostel abandonado, e depois seguimos para um pub local, para vermos o ambiente e aproveitarmos a viagem. Quando chegámos já sobre as nove, era quase hora de fechar, mas encontrámos uma enorme animação. Dezenas de australianos se juntavam ali, barulhentos e foliões, a beber cerveja, a conversar aos berros, e a ouvir com deleite e ruído a banda que tocava ao vivo. Alinhámos no espírito, comprámos the cheapest drink, please, sentámos ao pé da banda e lá ficámos, bebericando, conversando e deixando que a cerveja nos puxasse lentamente para um torpor feliz de álcool e música. Debatemos os planos para o dia seguinte, o Paul calculou até ao segundo a hora a que nos deveríamos levantar, e ainda cantámos e batemos o pé ao som das bandas que iam rodando frequentemente. Comentámos como ali as pessoas eram verdadeiramente australianas, verdadeiramente simpáticas e G’day mate, ao contrário do que acontece em Sydney, cidade que adoramos, mas que está inevitavelmente corrompida pelas influências europeias e asiáticas que lhe sugam a simpatia e o carácter tipicamente relaxado e amigável. Falámos com vários nativos, rimo-nos, discutimos os hábitos nocturnos dos diferentes países, e ainda sobrou tempo para aplaudirmos um corajoso e embriagado velhote de cabelo comprido, vestido de ganga dos pés à cabeça, que teve a audácia de se pôr de pé à frente da banda, fazendo danças ridículas que não sei descrever, muito contente, muito bêbedo, e com uma notória mancha de cerveja-já-processada que lhe cobria a braguilha e se estendia pelas pernas abaixo. Ninguém se importava, muito menos o próprio, e se serviu para alguma coisa foi para acentuar os aplausos histéricos e brindes ao engraçado velhote que se tornou assim a estrela da noite.

Arrancámos assim de volta para o hostel, já sobre as onze, hora de fecho. O hostel foi palco de grandes aventuras nos beliches débeis e ameaçadores, no quarto gelado onde Dios, me muero de frio, boludo, e onde as casas de banho tinham janelas inexplicavelmente abertas lá para fora, para o ar gelado e cortante da noite de inverno. Como não tínhamos alternativa, rimos de todas estas condições, da nossa própria desgraça e da possibilidade iminente de encontrarmos baratas debaixo das nossas cabeças, ou de perdermos para sempre o olfacto ao snifarmos as repugnantes e minúsculas mantas que nos foram fornecidas, e metemo-nos cada um no seu respectivo casulo, a conversar e a queixar-nos com risota de toda aquela precariedade.

Mas o cansaço era grande e portanto acabámos por dormir, bem ou mal, até às sete da manhã do dia seguinte, esperando que fosse melhor que o anterior.

Tomámos o pequeno-almoço e constatámos que afinal não podíamos ir ver as grutas conforme tínhamos planeado, porque o autocarro que nos levava até lá custava 53 dólares por pessoa. Duas vezes o preço da entrada nas Jenolan Caves propriamente ditas.

Amuámos um bocadinho, mas decidimos não dar parte fraca e fomos até Wentworth Falls, outra aldeia nas Montanhas, famosa pela sua catarata de trezentos metros que cai até ao fundo do vale, de forma semelhante ao tal comboio de que vos falei.

Almoçámos numa zona de piqueniques junto ao começo do trilho, sandes que confeccionámos toscamente no hostel-cemitério, e depois arrancámos pelos secretos trilhos sinuosos que vão descendendo e entrecruzando as cataratas, ora para cá ora para lá, na tarde que se tornara quente. A vista era espectacular e muito mais memorável que a do dia anterior, principalmente por os trilhos serem mais naturais e menos man-made, e também por sermos constantemente banhados por salpicos refrescantes que o vento roubava às cataratas e atirava contra nós. Tirámos imensas fotografias nos penhascos que terminam bruscamente ante o vale, e tomámos alguns minutos para ficar só quietos, a tentar ouvir o barulho final da água a cair lá em baixo, numa analogia rebuscada e pirosa ao filme Into the Wild.

Passámos o dia por estes trilhos, bebemos água cristalina da cascata embora fosse proibido, descansámos dentro de grutas seculares aquecidas pelo Sol tardio, contámos chistes, e delineámos planos futuros de viagens mirabolantes e rituais a impôr em empresas vindouras. Decretámos que vamos comprar uma guitarra para nos acompanhar pelo Mundo, uma companheira de viagem para os proximos meses, e decidimos também que aquele fora um dos melhores dias na Austrália, na verdadeira Austrália, e que apesar de não termos ido sair, tínhamos passado um bom bocado, sem arrependimentos e com a alma limpa pelo ar puro da Montanha.

Regressámos cansados no comboio escuro que chiava pelos carris, dormitando, e antecipando com entusiasmo a viagem pelas terras neo-zelandesas, jornada que durará dezoito dias e que terá início no dia vigésimo segundo do nono mês.

Para esta semana, espera-nos um penoso inferno de trabalhos escolares para entregar no próximo fim-de-semana, mas não nos arrependemos de ter ido às montanhas, e não nos importamos porque até agora tem valido a pena.

Dizem que vale sempre, quando a alma não é pequena.

PS: Podem ver mais fotografias no álbum de facebook.