O Fim das Coisas

Há cinco dias que cheguei a Lisboa minha casa, mas só agora consegui encontrar a coragem para escrever este artigo, o último artigo. O ponto final desta jornada Down Under.

Não sabia por onde começar nem que música escutar, porque é difícil, há tantas coisas, tantas ideias, mas tão poucas. Por onde começar, mas por onde acabar também. Achei pertinente a ideia de ir ao verdadeiro início deste blog, ao dia dezanove do sétimo mês, ao dia em que, como alguns dizem de forma pirosa mas talvez verdadeira, começou o resto da minha vida.

Lembro-me desse dia como se fosse hoje. O impacto com a cidade, os magotes de chineses, a incerteza quanto às amizades e às habitações, o hostel. O tenebroso hostel onde a minha toalha cheirava a mofinho, onde o colchão não era mais do que um fino filete de algodão que me danificava as costas e o humor, e onde acima de tudo o clima era de dúvida e secreta tristeza por inevitavelmente se achar sempre que não vai melhorar.

Lembro-me de como soube bem estar enganado e de como conheci as primeiras pessoas, como ficámos amigos por termos tanto em comum, por sabermos que assim havia de correr bem simplesmente porque não havia forma de isso não acontecer. Às vezes penso naquela tarde longínqua em que conheci os célebres argentinos, em que ficou escrito o destino das casas e das famílias, e penso também como teriam sido as coisas caso eles lá não tivessem estado. Poderia entrar numa cadeia complexa de ses e talvezes, se é que isso se pode dizer, em que tudo era diferente se tivesse conhecido antes outras pessoas, ou talvez acabasse por ser quase igual, porque assim estava destinado, assim teria que acontecer.

A verdade, de uma forma crua, é que isso não interessa, porque já aconteceu e não há forma de voltar atrás.

E ainda bem. Conhecer os argentinos foi o impulso necessário para sair daquela hesitação, para perceber que o cheiro da toalha e a grossura do colchão não eram razões para sofrimento e auto-comiseração, eram antes razões para me rir com os outros, para celebrarmos juntos a nossa própria miséria e precariedade, e para brindarmos ao facto (muito mais importante do que colchões e toalhas) de ainda termos cinco meses pela frente naquela cidade.

Lembro-me também da adição inexplicada do Paul e da consolidação da equipa que mais tarde chamámos de “Australian Homeless”. Recordo como passávamos os dias em busca de casas e as noites em busca de promoções para o vinho. Recordo como se passaram mais de duas semanas, entre fases de desespero, outras de maior risota, porque se a casa desse dia fosse um pardieiro, pelo menos já tínhamos alguma coisa de que nos rir.

E depois penso na surpresa que foi termos sido aceites em Bunn Street, o início do segundo capítulo, o começo de novas aventuras e amizades. Assola-me uma confusão de  pensamentos deste início, o desenvolvimento de políticas de higiene e logística, os primeiros cozinhados “em família”, o prazer de lavar a roupa e desfazer a mala, e de me sentir em casa.

Seguiu-se o começo da universidade e a guerra contra um novo desconhecido, uma nova forma de dúvida que agora já era mais suportável, porque sabíamos que pelo menos tínhamos animação garantida lá em casa. Era o descobrir as novas cadeiras, perceber como funcionava a faculdade e os professores, e começar a conhecer os restantes alunos, participar nas primeiras festas de boas-vindas e excursões pela ainda ignota cidade.

A partir deste ponto é mais difícil para mim identificar fases, porque é impossível dissociar alguns eventos, e também difícil situar outros. A partir deste ponto houve uma expansão descontrolada das coisas, cada dia conhecíamos novas pessoas, novas partes da cidade ou da faculdade, as cerimónias caíam e começávamos agora a conhecer-nos de verdade, passámos de um grupo de pessoas que se conheciam a um grupo de amigos que cada vez se iam mais conhecendo.

Íamos à praia, íamos sair, íamos descobrindo como a cidade se ligava facilmente e como o Google Maps já não era preciso, íamos descobrindo os primeiros empregos e novas amizades. Íamos também infelizmente sentindo como já ali o tempo nos escorregava, como nos escapava entre os dedos, como desaparecia inexplicavelmente como os croquetes de aperitivo.

Quando dei por mim estava na Nova Zelândia, numa viagem inesquecível pelo frio e pelas montanhas, uma jornada em moldes insólitos que nenhum de nós pretende repetir mas tão pouco poderá esquecer. Foi o tempo de muita miséria e discussão, mas também o tempo de grandes memórias – como o salto de pára-quedas, as aventuras ao cair da noite, as risadas pelos cheiros e putrefacções, e também as conversas mais filosóficas que fazem pensar e decidir.

E se antes já tínhamos a sensação de que tudo estava a perder o controlo, quando voltámos da Nova Zelândia ainda mais. A partir daí foi uma correria, e foi também uma das melhores partes. Andava sempre de um lado para o outro, fui a Melbourne com os espanhóis e tornei-me grande amigo deles, distribuí flyers, montei camas, tirei fotografias, fiz filas, recuperei amizades que, sem querer, tinha deixado em torpor, saí, gastei dinheiro, deixei de me preocupar tanto com o dinheiro, aproveitei. Percebi uma vez mais como o tempo é a maior riqueza que alguém pode ter, e senti como ma tiravam, como ma roubavam descaradamente sem que ninguém fizesse nada para o impedir. E depois percebi como era impossível impedi-lo, aceitei-o, e preparei-me para ser roubado. Se me vão roubar o meu tempo, então que mo roubem quando ele está mais gasto e escrito, pois assim sei que ficarão as memórias – e essas ninguém mas poderá roubar nunca.

A viagem final pela costa Este da Austrália foi um protótipo desta nova corrente de pensamento, foi um aproveitar total do tempo para fazer aquilo de que realmente gosto,  para estar com quem gosto e também conhecer outros de quem passei a gostar. Foram duas semanas de pura diversão e boas memórias, duas semanas de viagem e de amigos, que são das melhores coisas em que se pode gastar o tempo.

Soube-me bem estar de volta a Portugal, reencontrar a família e os amigos, de quem já tinha saudades. Mas não soube bem voltar e ver branco no preto, tentar compreender como nada mudou se eu mudei tanto.

Vou ter saudades destes tempos, destas pessoas destes meses, e preocupa-me o facto de para muitos deles, se calhar, restar para sempre apenas a sua memória, porque o tempo e as distâncias são traiçoeiros, e separam as pessoas. Vou ter saudades daquela cidade tão espectacular, em que tudo é limpo e tudo funciona bem, onde as pessoas estão bem com a vida e bem a vivem. E vou ter também saudades da nossa casa, das festas, das praias, dos amigos, da liberdade de não saber e antecipar.

Oiço agora o concerto dos Coldplay que fui ver ao estádio, umas das muitas boas memórias que trouxe. Mas não foi do nada, foi de propósito, porque assim me lembrei do fim, assim me lembrei de como o vocalista o cantou sem saber.

I see trees of green,
And clouds of white,
The Sydney Opera House
When it’s lit up at night

I see Australia and I
Can’t help but wonder
I think everyone in the world
Would love to live here Down Under

And I think to myself

What a wonderful world.

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Não pensemos nisso

Cá estou sentado na minha varandinha uma vez mais. Parece que hoje está mais frio, mas não faz mal porque pelo menos não há mosquitos. Há sim um resquício de um antigo embalar, um balançar amigo que acontece àqueles que passam um dia inteiro num barco.

Pois bem, hoje passei um dia inteiro num barco. Era uma festa gratis, em que a malta ia toda no barco pelo Sydney Harbour fora, com duas pistas de dança e opulentas aparelhagens que ecoavam até Melbourne. Tudo malta jovem, roupas curtas, cabelos estranhos, hipsters, tatuagens e muita, mas muita bazófia.

Foi engraçado, mas nada de especial porque a música era pesada e cansativa. Fez falta um spot onde me pudesse sentar e descontrair. Acho que a melhor coisa foi este perpétuo embalar que agora me acompanha, este sono acordado que relaxa e faz pensar.

Estou agora em semana de exames, o esforço final para esta trabalhosa UTS. Estou farto de lhe dedicar tempo. Estou farto de perder tempo, sobretudo porque é a minha maior riqueza nesta cidade – e já não me sobra muita.

Tenho tentado aproveitar o que me sobra para conhecer outras pessoas, ou para ficar a conhecer melhor outras que até hoje só conhecia superficialmente. Constato sempre que há histórias interessantes de que ainda não sabia, relatos engraçados e viagens exóticas que invejo, planos e aspirações que compartilho sem antes saber.

Tenho dedicado este tempo para conhecer. Para ouvir historias de como alguém foi parar a um campo de minas à noite no meio da Croácia, de como alguém trabalhou seis anos como canalizador, de como alguém está a juntar dinheiro para fugir com o seu respectivo e não voltar mais. Oiço estas histórias que pensava serem dos filmes, da imaginação, mas afinal são verdadeiras, são muito verdadeiras.

Todas elas têm uma coisa em comum – que é que todas elas estão relacionadas com aquilo que cada um mais gosta de fazer. Tenho-me apercebido de como isso é importante, de como isso é a chave para se ter boas histórias, para se criar boas histórias.

Detesto este período em que tenho de perder tempo a estudar coisas de que não gosto e de que nada me servirão. O que vale é que é só uma semaninha e depois estarei oficialmente de férias neste pais, os meus últimos dias. Aí sim, vou passá-los a fazer as coisas de que gosto, e vou certificar-me de que também eu trarei boas memórias e boas histórias para contar.

Por agora não tenho mesmo muito para vos dizer, a não ser que cada vez gosto mais deste sítio e destas pessoas, e que não quero nem por nada sair daqui e se calhar não voltar. Mas por favor não pensemos nisso.

Não pensemos nisso.

O Meu Cabelo é um Cronómetro

Nos últimos dias tenho-me apercebido de como o tempo tem passado rapidamente. Nem acredito que já aqui estou há quase quatro meses, quase oitenta porcento do tempo que gastarei neste país. A única coisa que me faz acreditar nessa realidade é o meu cabelo.

É verdade. O meu cabelo é um cronómetro. Todos sabemos que o meu couro cabeludo não tem uma taxa de crescimento muito elevada, mas ainda assim tem crescido a passos largos. Isso não me deixa outra alternativa se não acreditar que já não me resta muito.

Foi por isso que no fim de semana passado decidi ir para Melbourne, para conhecer essa cidade de que já tanto tinha ouvido falar. Desta feita fui com um grupo diferente, com os espanhóis, e passei lá um bom bocado.

Melbourne é uma cidade completamente diferente de Sydney. Há muito menos chineses e muito menos arranha-céus, e portanto a cidade é mais ampla e baixa. Quase toda a gente é meia alternativa, seja pelo cabelo, pelos óculos ou pelos sapatos. É a cidade natal dos hipsters e por isso compreendo porque a minha santa irmã se sente tão em casa. Há milhares de cafés e bares por todo o lado, todos alternativos e cool, e toda a gente se junta lá durante a tarde, para cafés, cervejas e conversas. É uma cidade mais relaxada do que Sydney, não se nota tanto a correria administrativa, e como há mais luz por falta de arranha-céus, o ambiente é diferente, mais descontraído.

Nestes dias ficámos em St Kilda, um bairro ligeiramente longe do centro, mas perto da praia e da animação. Foi bom, porque um dos espanhóis do nosso grupo tinha uma amiga lá a viver, que nos ajudou imenso a explorar a cidade.

Vimos a Federation Square, os Jardins Botânicos, os Queen Victoria Markets e o CBD, fizemos a caminhada junto à praia em St Kilda e no último dia ainda fomos dar uma vista de olhos pela praia de Brighton, famosa pelas suas casinhas às cores. À noite subimos a Eureka Tower e conseguimos ver toda a cidade a 300 metros de altitude.

Fizemo-lo sempre em ambiente animado, embora ao princípio eu só conhecesse um dos espanhóis, e depressa nos tornámos amigos – abandonando assim o inglês para passarmos ao portunhol. Soube bem conhecer pessoas novas e viajar com um grupo diferente, desta feita.

Passámos bons tempos durante toda a viagem, e especialmente no jantar em casa da Mónica, amiga do Pablo de que vos falei, onde comemos e bebemos com leveza e estivemos à conversa. Constatei uma vez mais que o Mundo é um bidé porque também os espanhóis são iguais aos portugueses, já que as piadas e os interesses serão para sempre universais entre nós jovens. Gostei de ouvir as suas histórias e ideias com as quais me identifiquei, e reforcei o meu desejo de aprender kite surf quando regressar à pátria.

Foi uma viagem que me soube bem, principalmente os últimos dias em que o tempo estava melhor, e serviu talvez para iniciar o terceiro capítulo desta jornada com a adição deste grupo.

Entretanto, uma vez regressado, tenho continuado a desempenhar tarefas para ganhar uns trocos, o que me tem ajudado a financiar estas excursões. O trabalho de me mascarar de pinguim nunca foi para a frente, mas o invés tenho feito tarefas de distribuir flyers e converter DVDs para o iTunes.

Hoje é já o segundo dia do décimo primeiro mês, e se não fosse o meu cabelo não acreditaria. Parece que no meio destas viagens, tarefas, trabalhos de grupo, saídas e cozinhados, o tempo passa mais depressa, tão depressa que até parece que nem passa, não tivesse eu um espelho e uma careca a rejuvenescer.

Normalmente isso significa que o tempo está a ser bem gasto – comprovei-o quando fiz o skydive – e acho que aqui se passa o mesmo. Se ao menos pudesse fazer com que ele passasse mais devagar, se ao menos ele se esticasse como o queijo numa fatia de pizza.

Tenciono aproveitar este terceiro capítulo à grande e nada me poderá impedir. Nem mesmo o meu cabelo.

Se fôr preciso, rapo-o outra vez.

Um bidé

Hoje estiveram trinta e dois graus em Sydney e o Mundo é um bidé. Um pequenito bidé. É impressionante como é pequeno, sendo estranhamente grande ao mesmo tempo.

Estou na minha varanda a ouvir música, e começo a pensar, há uma série de lugares, de países e de culturas, mas na verdade eles não são assim tão diferentes e distantes. As pessoas – e os aviões, verdade seja dita – têm uma habilidade especial para ficar mais perto, para ser mais perto.

No Domingo tivemos um almoço cá em casa com a mãe da Pauli, uma das nossas amigas argentinas. Veio visitar-nos porque no Sábado foram os anos dela, e como o seu namorado é piloto, conseguiram voar até cá facilmente. Convidámo-los porque achámos que seria simpático, mas principalmente porque precisávamos urgentemente de um pretexto para limpar a nossa casa que tinha acabado de ultrapassar recordes de sujidade e nojo.

Hoje é terça feira e a casa já está como antes, mas pelo menos esteve apresentável durante o almoço, que correu optimamente. Foi engraçado porque a Sandy não falava inglês, o que obviamente não abonava a favor do Paul, mas mesmo assim não impediu nada, porque o Nélio dava uns toques. Eram muito simpáticos, muito jovens e descontraídos, e imediatamente nos trataram como se fôssemos sobrinhos de verdade, Fran, me pasas el queso, hijo mio.

Contaram histórias engraçadas de Buenos Aires e de outras viagens, histórias do Mundo que sempre interessam e fazem rir, sempre num ambiente familiar de que já todos tínhamos saudades. Trouxeram muitos presentes, e contaram como os pais dos restantes argentinos tinham saudades indescritíveis mas orgulhosas. Estavam todos recontentos por estarmos a viver esta experiência, e por vivermos nesta casa e neste grupo “onde se vê que somos todos unidos”. Quase como irmãos. Uma família. No último livro que li, aprendi que as famílias são o que se quiser, e parece que nós assim quisemos. Esta é a nossa família aqui Down Under.

Mas é claro que temos cada um a sua outra família, a do sangue e do território, que por agora não está, mas de que temos saudades. Foi por isso que vimos todos o vídeo que a família do Diego lhe mandou, com muita nostalgia, mas ao mesmo tempo com muita graça e zomba.

O que mais me surpreendeu, mais do que tudo, é que apesar dos lugares e das pessoas, há coisas que são sempre iguais, como as famílias. Como os irmãos e os pais. E os avós e os tios. Acho que deve ser por isso que o Mundo é na verdade um bidé, um alguidar apertado onde vivemos a achar que estamos longe e somos diferentes, quando em boa verdade somos parecidos, somos iguais. Essa é para mim uma das maiores lições desta viagem.

Esta minha teoria foi novamente comprovada ontem, quando recebi uma mensagem de um amigo dos meus pais, dizendo-me que estava cá em Sydney e gostava de ir jantar comigo. Um bidé! Mesmo aqui a vinte mil quilómetros, longe da Lusitânia, encontro um amigo dos meus pais. Impressionante como as pessoas se movimentam e se ligam!

Fui então jantar com o Tio João Alvelos, em Sydney, nesta parte do bidé. Depois de alguns percalços e de restaurantes que fechavam cedíssimo, lá encontrámos um chinês simpático para conversarmos.

Em ambiente animado, e entre garfadas de arroz frito com pauzinhos, falámos sobre a cidade e o país, e concordámos que realmente é uma excelente oportunidade estar aqui e ter esta chance para aprender estas lições noutros lugares e com outras pessoas. Falámos de como era antes e de como as coisas mudam, mas ao mesmo tempo não mudam, porque tal como as famílias, os pais serão sempre pais, e os filhos serão sempre filhos.  Falámos de como eles são importantes para nós, e de como podemos fazer coisas boas com eles e por eles.

Foi um jantar muito agradável de que, como disse o Tio,  falaremos durante largos anos, e lembraremos como “aquele jantar lá no fim do Mundo”.

Todos estes eventos me ajudam a pensar que vivemos mesmo num bidé, porque podemos encontrar-nos em qualquer parte, em qualquer circunstância, pessoas de todas as origens, e ainda assim ligar e encontrar pequenos detalhes que são iguais, e que por isso não são assim tão pequenos – são talvez os maiores.

Gosto de estar nesta parte do bidé por enquanto, e acho que estou a fazê-lo da melhor forma possível. Claro que tenho saudades da família e dos amigos, mas ajuda saber que têm tanto orgulho nesta jornada, e ajuda ainda mais saber que estão lá, e que me dão a oportunidade de fazer isto e viver isto.

Às vezes não sei bem como agradecer, mas na verdade até é simples.

É aproveitar.

Uma Roadtrip e Uma Surpresa

Nos últimos dezoito dias percorri toda a ilha do Sul da Nova Zelândia numa autocaravana. Foi uma viagem que nunca esquecerei, diferente de todas as outras – na forma e no conteúdo – e embora tenha tido alguns precalços, guardarei para sempre os melhores momentos.

Devido à minha ausência aqui neste blog, há muito que ficou por contar. Raramente dei notícias, em boa verdade. Portanto, agora vos conto a maioria das coisas que ficaram por dizer. Organizarei o post por seccões, pois assim é mais fácil para vós a leitura e para mim o processo de recuperação de memórias.

Secção 1 – As Autocaravanas

Éramos sete nesta viagem: eu, Vasco, Paul, Diego, Negro, Joaco e Lucho. Supostamente íamos ser oito por motivos de economias de escala, mas tivemos uma desistência de última hora. Isto porque em cada van há lugar para dormirem quatro, e assim reduziríamos os custos. Enfim, como não foi possível, viajávamos em 4-3.

As vans são flexíveis: durante o dia são carros ordinários, mas à noite transformam-se em sofisticados laboratórios onde se testam os mais inovadores perfumes. Os bancos traseiros são móveis e esticam como um sofá cama, criando uma alegada cama no piso inferior. No piso superior, a ‘cama’ está sempre montada, mas serve de bagageira durante o dia. Na minha van, em cada um destes dosséis dormiam dois gigantescos orangotangos, pois o destino assim o ditou após o antecipado regresso dos papéis-de-fortuna. Foi assim que calhei no piso superior com o Diego, e o Negro no piso inferior com o Lucho.

Todas as noites, passávamos as malas para os dois lugares da frente, onde ninguém dorme, colocávamos as míseras cortinas que pendiam das portas na horizontal, e montávamos o complicado sistema de lençóis e sacos cama. Com quatro pessoas, como podem imaginar, num espaço microscópico, entre turras (a minha cama estava a uns vinte centímetros do tecto), desabafos de la puta madre, e sobretudo odores requintados de queijos e iguarias de outros lugares, lá dormíamos todos torcidos e com cabeçadas constantes cada vez que tentávamos mover-nos.

Mas há mais. As vans são autosuficientes, porque têm frigorífico, fogão, lavatório e uma alegada retrete portátil que ninguêm usou por ser nojenta – muito embora não tanto como a tarefa associada de a limpar após uso. Na parte traseira há botões para ligar estes aparelhos, conectados a uma bateria diferente da que inicia o carro. O frigorífico é estilo mini bar dos hoteis por fora, mas por dentro é uma pintura abstracta de leite e coca cola que vai chocalhando à medida que o carro saltita em andamento, ressaltada por ovos esmagados aquando de travessias turbulentas por lombas e passeios. O fogão é igual a todos os outros, embora evidentemente mais pequeno e praticamente colado ao lavatório, o que dificulta as movimentaçòes dentro desta cozinha de zero vírgula quatro metros quadrados. O lavatório tem uma torneira operada através de uma bomba de água que se tem de ligar nos tais botòes. Há que constantemente carregar o tanque de setenta e cinco litros de água limpa e esvaziar o outro, da água suja. Óbvio que na minha van esta torneira tinha um furo que alagava o armário imediatamente abaixo do lavatório sempre que se ligava a água. Era a nossa gotera. Este fenómeno contribuiu logicamente com uma dose avultada de odor a podre e a bafio, que assim se aliava a outras fragrâncias já existentes de loiças sujas, sapatos com ‘olor a pata‘ e remanescentes de comida carbonizada que ninguém limpava. É que limpar o que quer que seja é um processo que dá mucha paja, porque o lavatório é mínimo, o esfregão asqueroso, e complicado o processo de ir ligando e desligando a bomba da água, sempre todos curvados, para não bater com a cabeça no tecto de meio pé direito.

Há toda uma panóplia de roupas espalhadas por todo o lado, toalhas húmidas, meias putrefactas. Os lençóis cheiram a morto em deterioração avançada, e o chão da van é um pântano amazónico de lamas e ervas daninhas que todos importam do exterior.

Secção 2 – Higiene

Esta secção é muito curta porque os hábitos de higiene também o foram.

Na Nova Zelândia:
Tomei banho no mar uma vez.
Desempenhei certas necessidades em todo o tipo de casas de banho públicas.
Lavei os dentes diariamente na van.
Utilizei apenas duas calças.
Em dezoito dias, tomei duche duas vezes.

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Secção 3 – Alimentação e comodidades

Por sermos muitos e comermos alarvemente, as nossas refeições foram sempre complicadas. Normalmente almoçávamos sandwiches miseráveis e baratas, e ao jantar comíamos refeições que não exigissem grandes preparações, dados os nossos pequenos fogões e ainda menores panelas.

Os fideos eram mais do que comuns porque bastava cozer a massa e aquecer o molho, mas em algumas ocasiões galardoámo-nos com extravagâncias de chili con carne e bifes.

Normalmente quem cozinhava ganhava o privilégio de não limpar. Os restantes faziam sorteios mirabolantes que se estendiam pela noite fora e envolviam grande alvoroço. O Paul, escusado será dizer, perdia sempre, na sua ingenuidade rigorosa de Alemão. Lavar era do pior, porque muitas vezes já não tínhamos água no depósito, além disso não havia espaço e o esfregão era absolutamente desprezível. Daí haver tanta discussão.

Além deste handicap, as vans tinham um outro, talvez pior ainda. É que não tinham fichas eléctricas, ao contrário do que antecipáramos. Ou melhor, tinham, mas não funcionavam. A única maneira de funcionarem era se as ligássemos a postos de electricidade, semelhantes àqueles onde se carregam carros eléctricos, apenas disponíveis em campings onde se pagava dezoito dólares por cabeça. Indisponíveis, portanto. Como tal, nesta era de iPhones, câmaras digitais e aparelhos electrónicos, ninguém nunca tinha bateria em nada, e por isso nunca escrevi aqui.

A solução foi mendigar pelos vários McDonald’s que povoam a Nova Zelândia em busca de electricidade e de free wifi. O Lucho ficou prontamente conhecido pelo ladrão de energia, pois era experiente e trouxe consigo uma extensão universal capaz de carregar cinco aparelhos ao mesmo tempo. Os dois eram inseparáveis. Portanto ligávamos lá tudo, mais a extensão do Paul e o o seu computador (também a carregar iPods via USB) numa emaranhada confusão de cabos e até 12 aparelhos – em pleno McDonalds! Todos os kiwis nos olhavam jocosos e riam connosco da nossa própria precariedade.

E como quase sempre os McDonalds aqui permitem buffet de bebidas, comprávamos uma só e bebíamos todos dali, em dezenas de refills que fazíamos à vez. Eram assim uma referência importante que condicionava a nossa escolha de onde dormir e para onde seguir.

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Secção 4 – A Viagem e os seus Melhores Momentos

As viagens faziam-se quase sempre com música, cada um com os seus gostos que íamos aprendendo a respeitar. Jack Johnson era muito frequente por imposição Argentina, mas contrabalançado por The Killers e Shout Out Louds.

Era frequente irem caindo malas da bagageira, saltarem pratos sujos do lavatório para o meio do chão, ruídos de metais e garfos a estatelarem-se, e até líquidos nojentos de origens ignotas a esparramarem-se no chão com a carrinha a saltitar. Foi uma realidade que fomos forçados a encarar, e às tantas já nem olhávamos para trás a ver o que tinha caído – fosse o que fosse, era normal.

Cada dia guiávamos uns duzentos quilómetros, em média, baseando-nos em guias de viagem, no feedback de amigos que já fizeram parecido, e sobretudo através dos sábios conselhos que colhíamos nos vários i-Sites: centros de informação altamente competentes e gratuitos, espalhados por toda a Nova Zelândia. Lá pedíamos conselhos acerca do que ver, do que fazer e onde dormir. Foi assim que encontrámos alguns dos locais onde acampámos legalmente – porque quase sempre o fazíamos contra a lei – e foi também lá que encontrámos duches de um dólar e uma fábrica de chocolate onde nos davam amostras gratuitas.

A viagem era sobretudo de ver, de visitar, e não tanto de fazer ou descansar. Fizemos, ainda assim, várias caminhadas pelo meio da Natureza, pelas praias, pelas florestas. A Nova Zelândia é um país muito calmo, quase não há noite, mas é espectacular por isso mesmo e pelas paisagens incríveis com que nos deparamos em todas as estradas.

Se tivesse de apontar os meus sítios preferidos, escolheria Akaroa, espectacular junto ao lago, o Milford Sound na sua calma impressionante, a estrada que corre junto ao Lago Wanaka em direcção a Haast com vistas incríveis de lagos em espelho, o passeio no glaciar de Franz Josef e o parque Nacional Abel Tasman nas suas praias de ‘areia dourada’ e no hiking de catorze quilómetros.
Mas a verdade é que, como diz o Paul, é difícil eleger locais específicos, porque na realidade o que se apreende é uma ideia geral do país, impressionante em praticamente todas as estradas e todos os lugares.

Não gostaria de viver aqui, porque é de certa forma demasiado calmo, mas não me importaria de ter uma casa de férias, num dos milhares de sítios isolados que vimos, em lugares secretos com vistas privadas para o Pacífico neste canto do Mundo.

Relembro com saudade o fogo que montámos na praia de Timaru e sobre o qual cozinhámos o nosso jantar em paus que fabricámos, o jantar no meio do jardim em Dunedin, os leões marinhos a um metro de distância em Allans Beach, a praia secreta de Porpoise Bay e o nosso acampamento espectacular em Monkey Island. Recordo o cruzeiro pelo Milford Sound e a caminhada pelo Abel Tasman, e revejo o mar azul claro em Kaikoura fria e animada.

Lembro também os episódios de sorteios por tudo e por nada, em que quase sorteávamos se se decidia com sorteio, da falta de gasolina no meio do nada ao cair da noite em Milford, e do velho bebâdo que queria andar à pancada connosco em Queenstown porque estava aborrecido. Revejo o momento em que fomos mandados parar pela polícia porque estávamos a guiar demasiado devagar e também quando nos esquecemos do Paul em Fox Glacier. Relembro ainda algumas conversas mais filosóficas que tivemos quando nada mais havia que fazer, mas que nem por isso eram menos produtivas e interessantes.

Sabe-me bem voltar agora a casa, voltar a ter duche e comida decente, mas sei que nunca esquecerei esta viagem por este país de que tanto gosto.
Foi diferente, e por vezes esgotante pela falta de condições, mas não me arrependo.

Nem por um segundo. É uma experiência que faz crescer e dar valor a pequenos confortos que se tem numa viagem normal – mas que por defeito não apreciamos até sentirmos a sua falta. Apesar disso, acredito que esta é a melhor forma de descobrir este país, e agora sim posso dizer que o conheço bem!

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Secção 5 – Uma Surpresa

Enfim, por terem lido tudo isto e por me continuarem a apoiar nestas escritas, aqui vos recompenso com uma surpresa que estou ansioso para contar desde o dia quarto do décimo mês….

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A Nova Zelândia

Caros seguidores,

Peço desculpas pela minha ausência, mas tem sido muito difícil ter internet e bateria nos aparelhos em simultâneo. A viagem está a ser um espectáculo, mas não quero desperdiçar este post rápido a descrevê-la. Fá-lo-ei mais tarde, quando regressar à Austrália minha (quase) pátria.

Espero que esteja tudo bem com todos.

Para já deixo algumas fotografias dos melhores sítios até agora.

Beijinhos e abraços!

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